FVM (01/03): De Rubem Braga pra Vinícius...

Olá de novo...

Que bom que você voltou... Quando, na postagem de chamada, eu falei em "carta" para Vinícius, me lembrei logo de um texto muito conhecido de Rubem Braga, endereçado ao nosso Poetinha. E algumas pessoas o mandaram também para o email do blog (participe você também, através do blog@literaturaeshow.com.br). De início, acreditei ser imprudente colocá-lo hoje, pois eu queria mesmo que os leitores de Vinícius se manifestassem. E com Rubem Braga "puxando a fila", a nossa responsabilidade aumentaria. 

Mas decidi colocá-lo. Quem é de casa, da casa de Vinícius, não pode ficar com vergonha do Rubem. Por isso, creio que se você demonstrar sua admiração ao poeta de qualquer forma, ele estará feliz, esteja onde estiver...

Mas vamos deixar de enrolação e vamos logo ao texto...
Rubem Braga

"Meu caro Vinícius de Moraes:
Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira primavera, desde 1923 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera - acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma lestada muito forte, depois veio um sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.
O sinal mais humilde da chegada da Primavera, vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que que se aproximava, muito matreiro, um pássaro preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ele por seus ovos. Isso é uma história tão antiga que parece que só podia acontecer lá no fundo da roça, talvez no tempo do Império. Pois está acontecendo aqui em Ipanema, em minha casa, poeta. Acontecendo como a Primavera. Estive em Blumenau, onde há moitas de azaléias e manacás em flor; e em cada mocinha loira uma esperança de Vera Fischer. Agora vou ao Maranhão, reino do Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos. O tempo vai passando, poeta, Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui - a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.
Rubem Braga"
Vinícius volta ao meio dia... Até lá...


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