Um poema de Fabrício Carpinejar


Ouvidos de orvalho

Na eternidade, ninguém se julga eterno.
Aqui, nesta estada, penso que vou durar
além dos meus anos, que terei
outra chance de reaver o que não fiz.
Se perdoar é esquecer, me espera o pior:
serei esquecido quando redimido.

Não me perdoes, Deus. Não me esqueças.
O esquecimento jamais devolve seus reféns.

A claridade não se repete. A vida estala uma única vez.

O fogo é uma noz que não se quebra com as mãos.
A voz vem do fogo, que somente cresce se arremessado.
Não há como recuar depois de arder alto.
Fui lançado cedo demais às cinzas.

Somos reacionários no trajeto de volta.
Quando estava indo ao teu encontro,
arrisquei atalhos e travessas desconhecidas.
Acreditei que poderia sair pela entrada.
Ao retornar, não improviso.

Minha conversão é pelo medo,
orando de joelhos diante do revólver,
sem volver aos lados,
na dúvida se é de brinquedo ou de verdade.

O vento faz curva. Não mexo nos bolsos,
na pasta e na consciência,
nenhum gesto brusco de guitarra,
a ciência de uma mira
e o gatilho rodando próximo
do tambor dos dentes.

Derramado em Deus, junto meu desperdício.

Vou te extraviando no ato de nomear.
Melhor seria recuar no silêncio.

Cantamos em coro como animais da escureza.
Os cílios não germinaram.
Falta plantio em nossas bocas, vegetação nas unhas,
estampas e ervas no peito.
Suplicamos graves e agudos, espasmos e espanto,
compondo esquina com a noite.

Cantar não é desabafo,
mas puxar os sinos
além do nosso peso,
acordando a cúpula de pombas.

Somos fumaça e cera,
limo e telha,
névoa e leme.
O inverno nos inventou.

Não importa se te escuto
ou se explodes meus ouvidos de orvalho:
morre aquilo que não posso conversar?

Ficarei isolado e reduzido,
uma fotografia esvaziada de datas.
Os familiares tentarão decifrar quem fui
e o que prosperou do legado.
Haverei de ser um estranho no retrato
de olhos vivos em papel velho.

Escrevo para ser reescrito.
Ando no armazém da neblina, tenso,
sob ameaça do sol.

Do livro inédito Cinco Marias.


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Um texto de Alice Ruiz


Alice, ao lado Paulo Leminski

Drumundana
Alice Ruiz


e agora maria?

o amor acabou
a filha casou
o filho mudou
teu homem foi pra vida
que tudo cria
a fantasia
que você sonhou
apagou
à luz do dia

e agora maria?
vai com as outras
vai viver
com a hipocondria


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Um texto de Cora Coralina


O cântico da terra


Cora Coralina


Eu sou a terra, eu sou a vida.
Do meu barro primeiro veio o homem.
De mim veio a mulher e veio o amor.
Veio a árvore, veio a fonte.
Vem o fruto e vem a flor.

Eu sou a fonte original de toda vida.
Sou o chão que se prende à tua casa.
Sou a telha da coberta de teu lar.
A mina constante de teu poço.
Sou a espiga generosa de teu gado
e certeza tranqüila ao teu esforço.

Sou a razão de tua vida.
De mim vieste pela mão do Criador,
e a mim tu voltarás no fim da lida.
Só em mim acharás descanso e Paz.

Eu sou a grande Mãe Universal.
Tua filha, tua noiva e desposada.
A mulher e o ventre que fecundas.
Sou a gleba, a gestação, eu sou o amor.

A ti, ó lavrador, tudo quanto é meu.
Teu arado, tua foice, teu machado.
O berço pequenino de teu filho.
O algodão de tua veste
e o pão de tua casa.

E um dia bem distante
a mim tu voltarás.
E no canteiro materno de meu seio
tranqüilo dormirás.

Plantemos a roça.
Lavremos a gleba.
Cuidemos do ninho,
do gado e da tulha.
Fartura teremos
e donos de sítio
felizes seremos.


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PELA INTERNET: Fotógrafo cria final trágico para heroínas de contos de fadas

Do site BBC Brasil

O fotógrafo francês Thomas Czarnecki imaginou o momento da morte de heroínas de contos de fadas na série "From enchantment to down" (Do encantamento à queda, em tradução livre). 

Czarnecki diz que queria criar um choque cultural com a série de fotos, que mostram personagens como Alice, Branca de Neve e Chapeuzinho Vermelho mortas em locais abandonados e escuros. 

Na maior parte das imagens, os cenários tem relação com as histórias das personagens. A sereia Ariel aparece morta e envolta em plástico em uma praia e a índia americana Pocahontas é carregada nos braços pelo caçador que a matou. 

Segundo o fotógrafo, seu objetivo era criar um "choque de culturas", mostrando o contraste entre a ingenuidade dos contos de fada e as imagens cruéis da realidade, divulgadas na mídia.

Abaixo, Chapelzinho Vermelho, morta em um celeiro. Para ver as outras fotos de Thomas Czarnecki, clique aqui.


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Tempo de carnaval

Olá internauta. Você sabia que o carnaval provavelmente se originou do culto a Dionísio, deus grego do vinho, das videiras e do delírio místico? Você conhece o carnaval de Veneza, o mais antigo do mundo? Sabe o que é entrudo? E por que carnaval, Quaresma e Páscoa, são datas móveis? 

Todas essas informações estão em um dos blogs da professora Andréa Motta, autora do Conversa de Português. Clique aqui e confira!

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Vídeos para um carnaval literário


Abaixo, alguns vídeos envolvendo carnaval e Literatura:

Trecho do desfile da Estácio de Sá (1992), sobre o Modernismo Brasileiro.




Abaixo, o clássico samba-enredo da Portela (1966), sobre o livro Memória de um sargento de milícias, de Manuel Antônio de Almeida. No vídeo, o samba vem com a interpretação de Martinho da Vila.





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