D. Dinis, o Rei Trovador

Há 688 anos, morria D. Dinis, Rei de Portugal e um dos principais nomes do Trovadorismo.

BIOGRAFIA
Sexto rei de Portugal (1279-1325), nascido em Lisboa, conhecido como o Rei Trovador ou o Rei Lavrador, devido a ter prestado grande dedicação ao desenvolvimento da agricultura. Filho de Afonso III e de sua segunda mulher, Beatriz, e neto de Afonso X de Castela, casou-se com Isabel de Aragão, posteriormente chamada a Rainha Santa pelas suas excepcionais virtudes. Desde cedo foi preparado para ser rei pelo seu pai e quando subiu ao trono português, aclamado em Lisboa (1279), impôs sua autoridade e consolidou a unificação administrativa e cultural da nação. Quando subiu ao trono imediatamente procurou normalizar a situação com a Igreja Católica, jurando ao Papa Nicolau III proteger os interesses de Roma em Portugal. Extinguiu a Ordem do Templo e criou a Ordem de Cristo ligada à Ordem dos Templários. Foi essencialmente um rei administrador e não guerreiro, pois embora tenha se envolvido na guerra com Castela (1295), desistiu dela em troca das vilas de Serpa e Moura. Pelo Tratado de Alcanises (1297) firmou a Paz com Castela, definindo-se nesse tratado as fronteiras atuais entre os dois países ibéricos. Para estimular a agricultura, distribuiu terras a colonos, mandou construir canais e secar pântanos e limitou os privilégios territoriais da igreja e, por isso, foi cognominado O Lavrador ou O Rei-Agricultor. Começou a interessar-se também pelo desenvolvimento do comércio marítimo e aperfeiçoamento dos processos de navegação e contratou marinheiros italianos para virem trabalhar em Portugal e fez convênios comerciais com outros monarcas. Durante seu longo reinado, o comércio também prosperou, com o aumento da extração de metais, a proteção às feiras e a reorganização da Marinha. Beneficiou a literatura e mandou traduzir livros latinos e árabes, inclusive a Geografia de Razis. Adotou o vernáculo nos documentos oficiais e, com o apoio do Papa, criou a primeira universidade portuguesa (1290), que funcionou entre Lisboa e Coimbra, até se fixar nesta última cidade como a famosa Universidade de Coimbra. Começou a usar-se a língua portuguesa nos documentos escritos e foi o primeiro rei português a assinar os seus documentos com o nome completo. Provavelmente o primeiro rei português não analfabeto, foi poeta e protetor de trovadores e jograis e também apelidado de O Rei-Poeta ou O Rei-Trovador pelas cantigas que compôs e pelo desenvolvimento da poesia trovadoresca a que se assistiu no seu reinado. Compôs cerca de 140 cantigas líricas e satíricas, e permaneceu no poder até sua morte, em Santarém, e está sepultado no Convento de São Dinis, em Odivelas. Apesar de ser um bom rei, os últimos anos do seu reinado foram marcados por conflitos internos. O herdeiro, futuro D. Afonso IV, achou que o rei favoreceria seu filho bastardo, Afonso Sanches, e entrou em conflito com o pai, mas não chegou a haver guerra civil.

FONTE: DEC/UFCG

CANTIGAS DE D. DINIS (Para entender mais sobre as cantigas trovadorescas, clique aqui e aqui).

Chegou-m'ora aqui recado
Dom Dinis
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 558, Cancioneiro da Vaticana 161

Chegou-m'ora aqui recado,
amiga, do voss'amigo,
e aquel que falou migo
diz-mi que é tam coitado
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Diz que hoje, tercer dia,
bem lhi partírades morte
mais houv'el coita tam forte
e tam coitad'er jazia
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Com mal que lhi vós fezestes
jurou-m', amiga fremosa,
que, pero vós poderosa
fostes d'el quanto quisestes,
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
E gram perda per fazedes
u tal amigo perdedes.

COMENTÁRIO: Cantiga de amigo; de refrão, com finda. Uma amiga conta à rapariga a tristeza do seu amigo.


Amiga, muit'ha gran sazón
Dom Dinis
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 157, Cancioneiro da Vaticana 554

Amiga, muit'ha gran sazón
que se foi d'aquí con el-rei
meu amigo, mais ja cuidei
mil vezes no meu coraçón
que algur morreu con pesar,
pois non tornou migo falar.
Porque tarda tan muito lá
e nunca me tornou veer,
amiga, si veja prazer,
máis de mil vezes cuidei ja
que algur morreu con pesar,
pois non tornou migo falar.
Amiga, o coraçón seu
era de tornar ced'aquí,
u visse os meus olhos en mí,
e por én mil vezes cuid'eu
que algur morreu con pesar,
pois non tornou migo falar.

COMENTÁRIO: Cantiga de amigo; de refrão. Dirigindo-se a uma amiga, a rapariga pensa que o seu amigo, que se foi com o rei, deveu de morrer de pena, visto que não volta falar com ela


Preguntar-vos quero por Deus
Dom Dinis
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 525b, Cancioneiro da Vaticana 128

Preguntar-vos quero por Deus
senhor fremosa, que vos fez
mesurada e de bom prez,
que pecados forom os meus
que nunca tevestes por bem
de nunca mi fazerdes bem.
Pero sempre vos soub'amar
des aquel dia que vos vi,
mais que os meus olhos em mi,
e assi o quis Deus guisar,
que nunca tevestes por bem
de nunca mi fazerdes bem.
Des que vos vi, sempr'o maior
bem que vos podia querer
vos quigi, a todo meu poder,
e pero quis Nostro Senhor
que nunca tevestes por bem
de nunca mi fazerdes bem.
Mais, senhor, ainda com bem
se cobraria bem por bem.

COMENTÁRIO: Cantiga de amor; de refrão, com finda. O poeta pergunta à amada por qual razão ela não corresponde ao seu grande amor.


Senhor, cuitad'é o meu coraçom
Dom Dinis
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 523b, Cancioneiro da Vaticana 126

Senhor, cuitad'é o meu coraçom
por vós, e moiro, se Deus mi perdom,
porque sabede que des que entom
vos vi, desi
nunca coita perdi.
Tanto me coita e tarix[1] mal Amor
que me mata, seed'em sabedor;
e tod'aquesto é des que, senhor,
vos vi, desi
nunca coita perdi.
Ca de me matar Amor nom m'é greu,
tanto mal sofro já em poder seu;
e tod'aquest'é, senhora, des quand'eu
vos vi, desi
nunca coita perdi.

COMENTÁRIO: Cantiga de amor; de refrão. Dirigindo-se à amada, o poeta insiste sobre a sua coita desde que a viu.

Abaixo, um vídeo com a declamação de uma cantiga de amor de D. Dinis




Não deixe de comentar e avaliar esta postagem. Precisamos SEMPRE do seu retorno. Desde já agradecemos.


 
l