Hoje é aniversário de Umberto Eco


Hoje o mundo comemora o aniversário de um dos maiores nomes da ficção universal: o do escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco, nascido em 1932, em Alessandria, na Itália. Um autor de obras eruditas e densamente alusivas que figuram entre os maiores sucessos da ficção pós-moderna, além de trabalhos acadêmicos e livros infantis.

Ninguém diria, muito menos seu autor, que O Nome da Rosa, um romance de detetive passado num mosteiro medieval italiano tendo como pano de fundo o debate franciscano sobre a pobreza, faria tanto sucesso. Eco já era um respeitado semiólogo da Universidade de Bolonha quando o escreveu e declarou que sua inspiração foi a mera vontade que tinha de envenenar um monge.

Muito mais coisas acontecem, porém, nesse livro, do que seu autor levaria você a acreditar. Uma delas é o seu conhecimento íntimo do tema: seus monges pensam do jeito que os monges pensariam na densa rede intertextual de escrituras, comentários e filosofia neoplatônica que caracteriza as mentes medievais ilustradas. É uma obra extremamente densa para um romance histórico de mistério e assassinato.

Sucesso de vendas não tão expressivo quanto seu predecessor, O Pêndulo de Foucault está, não obstante, na origem de um gênero que, na estreia de O Código Da Vinci - de Dan Brown -, poderia ser para o século XXI o que o romance de detetive foi para o século XIX: o thriller histórico-artístico. Ele conta a história de três editores de livros ocultistas que inventam uma única teoria da conspiração abrangendo toda a História, das pirâmides ao nazismo. Eco escreve com raríssimo entusiasmo pelas ideias em si e por si; poucos escritores decidiram mais claramente compartilhá-las com seus leitores pelo prazer de fazê-lo. Eco foi laureado com inúmeros títulos honoríficos de instituições acadêmicas de todo o mundo.

PRINCIPAIS OBRAS
Romances 
O nome da Rosa (1980);
O pêndulo de Foucault (1988);
A ilha do dia anterior (1994);
Baudolino (2000);
A misteriosa chama da rainha Loana (2004)
Ficção infantil
A bomba e o general (1966)
Os três astronautas (1966)

FONTE: Adaptado de 501 grandes escritores, Editora Sextante

PRÓLOGO DE "O NOME DA ROSA"

No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto a Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto a Deus e o dever do monge fiel seria repetir cada dia com salmodiante humildade o único evento imodificável do qual se pode confirmar a incontrovertível verdade. Mas videmus nunc per speculum et in aenigmate e a verdade, ao invés de cara a cara, manifesta-se deixando às vezes rastros (ai, quão ilegíveis) no erro do mundo, tanto que precisamos calculá-lo, soletrando os verdadeiros sinais, mesmo lá onde nos parecem obscuros e quase entremeados por uma vontade totalmente voltada para o mal. 

Chegando ao fim desta minha vida de pecador, enquanto, encanecido, envelheço como o mundo, à espera de perder-me no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta, participando da luz inconversível das inteligências angélicas, já entrevado com meu corpo pesado e doente nesta cela do caro mosteiro de Melk, apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos miríficos e formidáveis a que na juventude me foi dado assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem me aventurar a tirar disso um desenho, como a deixar aos que virão (se o Anticristo não os preceder) signos de signos, para que sobre eles se exercite a prece da decifração. 

Conceda-me o Senhor a graça de ser testemunha transparente dos acontecimentos que tiveram lugar na abadia da qual é bem e piedoso se cale também afinal o nome, ao findar do ano do Senhor de 1327 em que o imperador Ludovico entrou na Itália para reconstituir a dignidade do sagrado império romano, segundo os desígnios do Altíssimo e a confusão do infame usurpador simoníaco e heresiarca que em Avignon lançou vergonha ao santo nome do apóstolo (falo da alma pecadora de Jacques de Cahors, que os ímpios honraram como João XXII). 

Quem sabe, para compreender melhor os acontecimentos em que me achei envolvido, é bom que eu recorde o que andava acontecendo naquele pedaço de século, do modo como o compreendi então, vivendo-o, e do modo como o rememoro agora, enriquecido de outras narrativas que ouvi depois - se é que a minha memória estará em condições de reatar os fios de tantos e tão confusos eventos. 

Desde os primeiros anos daquele século o papa Clemente V transferira a sede apostólica para Avignon deixando Roma às voltas com as ambições de senhores locais: e gradualmente a cidade santa da cristandade transformara-se num circo, ou num lupanar, dilacerada pelas lutas entre os seus maiores; dizia-se república, e não era, batida por bandos armados, submetida a violências e saques. Eclesiásticos que haviam se subtraído à jurisdição secular comandavam grupos de facínoras e rapinavam de espada em punho, prevaricavam e organizavam torpes tráficos. Como impedir que o Caput Mundi voltasse a ser, e justamente, a meta de quem quisesse vestir a coroa do sagrado império romano e restaurar a dignidade daquele domínio temporal que já fora dos césares? 

Eis pois que no ano de 1314 cinco príncipes germânicos elegeram, em Frankfurt, Ludovico da Baviera regente supremo do império. Mas no mesmo dia, na outra margem do Meno, o conde palatino do Reno e o arcebispo de Colônia tinham eleito à mesma dignidade Frederico da Áustria. Dois imperadores para uma única sede e um único papa para duas: situação que se tornou, na verdade, incentivo para grande desordem... 

Dois anos depois era eleito em Avignon o novo papa, Jacques de Cahors, velho de setenta e dois anos, justamente com o nome de João XXII, e queira o céu que nunca mais um pontífice assuma um nome assim, já tão malquisto pelos bons. Francês e devotado ao rei de França (os homens dessa terra corrompida estão sempre inclinados a favorecer os interesses dos seus, e são incapazes de olhar para o mundo inteiro como sua pátria espiritual), ele havia sustentado Filipe, o Belo, contra os cavaleiros templários, que o rei acusara (creio que injustamente) de vergonhosos crimes para apoderar-se de seus bens, cúmplice aquele eclesiástico renegado. Nesse ínterim, inserira-se na trama toda Roberto de Nápoles, que para manter o controle da península italiana convencera o papa a não reconhecer nenhum dos dois imperadores germânicos, e assim permanecera capitão-mor do estado da igreja. 

Em 1322 Ludovico, o Bávaro, batia seu rival Frederico. Ainda mais temeroso de um único imperador, do que o fora de dois, João excomungou o vencedor, e este, em contrapartida, denunciou o papa como herético. É preciso dizer que, justamente naquele ano, tivera lugar em Perúgia o capítulo dos frades franciscanos, e o geral deles, Michele de Cesena, acolhendo as instâncias dos "espirituais" (sobre os quais terei ainda ocasião de falar) proclamara como verdade de fé a pobreza de Cristo, que, se tinha possuído alguma coisa com seus apóstolos, Ele a tivera apenas como usus facti. Digna resolução, que visava salvaguardar a virtude e a pureza da ordem; mas que desagradou sobremaneira ao papa, por talvez entrever nisso um princípio que teria posto em risco as mesmas pretensões que ele, como chefe da igreja, tinha de contestar ao império o direito de eleger bispos, encampando para o sacro sólio o de investir o imperador. Fossem essas ou outras as razões que o moviam, em 1323 João condenou as proposições dos franciscanos com a decretal Cum inter nonnullos

Foi nesse ponto, imagino, que Ludovico viu nos franciscanos, já então inimigos do papa, poderosos aliados. Afirmando a pobreza de Cristo eles, de certo modo, revigoravam as ideias dos teólogos imperais, ou seja, de Marsilio de Pádua e Giovanni de Gianduno. E por fim, não muitos meses antes dos eventos que estou narrando, Ludovico, que havia chegado a um acordo com o vencido Frederico, descia na Itália, era coroado em Milão, entrava em conflito com os Visconti, que todavia o tinham acolhido com favor, sitiava Pisa, nomeava vigário-imperial Castruccio, duque de Lucca e Pistoia (e creio que fizesse mal porque não conheci jamais homem mais cruel, exceto talvez Uguccione de Faggiola), e já se aprestava a entrar em Roma, chamado por Sciarra Colonna, senhor do lugar. 

Eis como era a situação quando eu - então noviço beneditino no mosteiro de Melk - fui tirado da tranquilidade do claustro por meu pai, que se batia no séquito de Ludovico, não o último dentre seus barões, e que achou de bom alvitre levar-me consigo para que conhecesse as maravilhas da Itália e estivesse presente quando o imperador fosse coroado em Roma. Mas o sítio a Pisa absorveu-o nas lides militares. Eu tirei vantagem disso vagando, um pouco por ócio e um pouco por desejo de aprender, pelas cidades da Toscana, mas essa vida livre e sem regra não convinha, pensaram meus genitores, a um adolescente voltado à vida contemplativa. E a conselho de Marsílio, que começara a ter afeição por mim, decidiram pôr-me junto de um sábio franciscano, frei Guilherme de Baskerville, que estava para iniciar uma missão que o levaria a cidades famosas e abadias antiquíssimas. Tornei-me assim seu escrivão e discípulo ao mesmo tempo, nem tive do que me arrepender, porque fui com ele testemunha de acontecimentos dignos de serem consignados, como estou fazendo agora, para memória daqueles que virão. 

Eu não sabia então o que frei Guilherme estava procurando, e para dizer a verdade não o sei ainda hoje, e presumo que nem ele mesmo soubesse, movido que estava pelo desejo único da verdade, e pela suspeita - que sempre o vi alimentar - de que a verdade não fosse a que lhe aparecia no momento presente. E talvez naqueles anos ele estivesse distraído de seus estudos prediletos por incumbências do século. A missão de que Guilherme estava encarregado continuou desconhecida para mim durante toda a viagem, ou melhor, ele não me falou dela. Foi antes ouvindo trechos de conversas, que ele teve com os abades dos mosteiros em que nos detínhamos cada vez, que formei alguma ideia da natureza de sua tarefa. Mas não a compreendi de todo enquanto não atingimos nossa meta, como contarei mais tarde. Dirigíamo-nos para setentrião, mas nossa viagem não procedeu em linha reta e nos detivemos em várias abadias. Acontece que dobramos para ocidente enquanto nossa meta última ficava a oriente, quase seguindo a linha dos montes que de Pisa leva em direção aos caminhos de San Giacomo, parando numa terra em que os terríveis acontecimentos que lá ocorreram depois me desaconselham a identificar melhor, mas cujos senhores eram fiéis ao império e onde os abades de nossa ordem opunham-se de comum acordo ao papa herege e corrupto. A viagem durou duas semanas, entrecortadas por vários acontecimentos, e nesse tempo tive oportunidade de conhecer (nunca o suficiente, como sempre me convenço) meu novo mestre. 

Nas páginas que seguem não vou me deter em descrições de pessoas - a não ser quando a expressão de um rosto, ou um gesto, apareçam como sinais de muda mas eloquente linguagem - porque, como diz Boécio, nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono, e que sentido teria hoje dizer do abade Abbone, que tinha o olhar severo e as faces pálidas, quando agora ele e os que o rodeavam já são pó e do pó seu corpo tem o cinzento da morte (só a alma, queira Deus, resplandecendo de uma luz que não se apagará nunca mais)? Mas de Guilherme queria falar, e de uma vez por todas, porque dele também me tocaram as feições singulares, e é próprio dos jovens ligarem-se a um homem mais velho e mais sábio, não só pelo fascínio da palavra e agudez da mente, mas também pela forma superficial do corpo, que se torna querida, como acontece com a figura de um pai, de quem se estudam os gestos, os arrufos, e se espia o sorriso - sem que sombra alguma de luxúria contamine este modo (talvez o único puríssimo) de amor corporal. 

Os homens de outrora eram grandes e belos (agora são crianças e anões), mas esse fato é apenas um dos muitos que testemunham a desventura de um mundo que vai envelhecendo. A juventude não quer aprender mais nada, a ciência está em decadência, o mundo inteiro caminha de cabeça para baixo, cegos conduzem outros cegos e os fazem precipitar-se nos abismos, os pássaros se lançam antes de alçar voo, o asno toca lira, os bois dançam. Maria não ama mais a vida contemplativa e Marta não ama mais a vida ativa, Léa é estéril, Raquel tem olhos lúbricos, Catão frequenta os lupanares, Lucrécio vira mulher. Tudo está desviado do próprio caminho. Sejam dadas graças a Deus por eu naqueles tempos ter adquirido de meu mestre a vontade de aprender e o sentido do caminho reto, que se conserva mesmo quando o atalho é tortuoso. 

Era pois a aparência física de frei Guilherme de tal porte que atraía a atenção do observador mais distraído. Sua estatura superava a de um homem normal e era tão magro que parecia mais alto. Tinha olhos agudos e penetrantes; o nariz afilado e um tanto adunco conferia ao rosto a expressão de alguém que vigia, salvo nos momentos de torpor, dos quais falarei. Também o queixo denunciava nele uma vontade firme, mesmo se o rosto alongado e coberto de efélides - como vi frequentemente nos nascidos entre Hibérnia e Nortúmbria - pudesse às vezes exprimir incerteza e perplexidade. Percebi com o tempo que o que parecia insegurança era ao contrário apenas curiosidade, mas de início eu pouco sabia dessa virtude, que acreditava antes uma paixão da alma concupiscente, achando que a alma racional não devia dela se nutrir, alimentando-se tão-somente da verdade, coisa que (pensava eu) já se sabe desde o início. 

Criança que era, o que logo me tocara nele eram certos tufos de pelos amarelados que lhe escapavam das orelhas, e as sobrancelhas espessas e loiras. Podia ele ter cinquenta primaveras e já era portanto muito velho, mas movia o corpo incansável com uma agilidade que eu muitas vezes não tinha. Sua energia parecia inexaurível, quando o colhia um excesso de atividade. Mas de vez em quando, como se seu espírito vital participasse da natureza do camarão, recedia a momentos de inércia e o vi permanecer horas sobre o catre em sua cela, pronunciando a custo algum monossílabo, sem contrair um só músculo do rosto. Nessas ocasiões aparecia-lhe nos olhos uma expressão vazia e ausente, e teria suspeitado que estava sob o império de alguma substância vegetal capaz de provocar visões, se a patente temperança que lhe regulava a vida não me tivesse induzido a rejeitar tal pensamento. Não escondo todavia que, no curso da viagem, detivera-se às vezes na beira de um prado, nas bordas de uma floresta, para apanhar alguma erva (creio que sempre a mesma): e punha-se a mascá-la com rosto absorto. Trazia uma pequena provisão consigo, que comia nos momentos de maior tensão (e quão frequentes eles foram na abadia!). Uma vez que lhe perguntei de que se tratava, disse sorrindo que um bom cristão pode de vez em quando aprender com os infiéis; e quando lhe pedi para prová-la, respondeu-me que, assim como ocorre com os discursos, também entre humildes existem os paidikoi, ephebikoi e gynaikeioi e assim por diante, de modo que as ervas que são boas para um velho franciscano não são boas para um jovem beneditino. 

O tempo que estivemos juntos não tivemos oportunidade de levar vida muito regular: mesmo na abadia velamos à noite e caímos cansados de dia, nem participamos regularmente dos ofícios sagrados. Contudo, em viagem, raramente ficava acordado após as completas e tinha hábitos parcos. Algumas vezes, como aconteceu na abadia, passava o dia inteiro movendo-se no horto, examinando as plantas como se fossem crisóprasos ou esmeraldas, e o vi andando pela cripta do tesouro admirando um escrínio cravejado de esmeraldas e crisóprasos como se fosse uma touceira de estramônio. Outras vezes permanecia o dia todo na sala grande da biblioteca folheando manuscritos como a procurar neles nada além que o próprio prazer (enquanto ao nosso redor se multiplicavam os cadáveres dos monges horrivelmente assassinados). Um dia encontrei-o passeando no jardim sem objetivo aparente, como se não precisasse prestar contas a Deus de seus atos. Na Ordem haviam-me ensinado um modo bem diverso de dividir o meu tempo, e eu lhe disse isso. E ele respondeu que a beleza do cosmos é dada não só pela unidade na variedade, mas também pela variedade na unidade. 

Pareceu-me uma resposta ditada por deseducada empiria, mas aprendi em seguida que os homens de sua terra frequentemente definem as coisas de modo a parecer que a força iluminadora da razão tenha pouquíssima serventia. 

Durante o período que permanecemos na abadia vi-lhe sempre as mãos cobertas pela poeira dos livros, pelo ouro das miniaturas ainda frescas, pelas substâncias amareladas que tocara no hospital de Severino. Dava a impressão de não poder pensar a não ser com as mãos, coisa que então me parecia mais digna de um mecânico (e haviam-me ensinado que o mecânico é moechus, e comete adultério nos confrontos da vida intelectual a quem deveria estar unido em castíssimo esponsal): porém mesmo quando suas mãos tocavam coisas muito frágeis, como certos códices de miniaturas ainda frescas, ou páginas corroídas pelo tempo e friáveis como pão ázimo, ele possuía, parece-me, uma extraordinária delicadeza de tato, a mesma que usava para tocar suas máquinas. Direi, com efeito, que este homem curioso trazia consigo, em seu saco de viagem, instrumentos que não tinha visto até então, e que ele definia como suas maravilhosas máquinas. As máquinas, afirmava, são efeito da arte, que é macaco da natureza, e dela reproduzem não as formas mas a própria operação. Assim me explicou ele as maravilhas do relógio, do astrolábio e do ímã. Mas no início pensei tratar-se de bruxaria, e fingi dormir algumas noites serenas em que ele se punha (com um estranho triângulo na mão) a observar as estrelas. 

Os franciscanos que conhecera na Itália e na minha terra eram homens simples, quase sempre iletrados, e me espantei com ele por sua sabedoria. Mas ele me disse sorrindo que os franciscanos de suas ilhas eram de outra cepa: "Roger Bacon, que eu venero como mestre, nos ensinou que o plano divino passará um dia para a ciência das máquinas, que é magia natural e santa. E um dia, por força da natureza, poderão ser feitos instrumentos de navegação graças aos quais as naves irão unico homine regente, e bem mais rápidas que as impelidas a vela ou a remos; e haverá carros 'ut sine animali moveantur cum impetu inaestimabili, et instrumenta volandi et homo sedens im medio instrumentis revolvens aliquod ingenium per quod alae artificialiter composita aerem verberent, ad modum avis volantis'. E instrumentos minúsculos que erguerão pesos infinitos e veículos que permitirão viajar no fundo do mar." 

Quando lhe perguntei onde estavam essas máquinas, disse-me que já tinham sido feitas na antiguidade, e algumas até em nossos tempos: "Exceto o instrumento para voar, que não vi nem conheci quem o tivesse visto, mas conheço um sábio que o imaginou. E é possível fazer pontes que atravessem os rios sem colunas ou qualquer outro sustentamento e outras máquinas inauditas. Mas não precisas ficar preocupado se não existem ainda, porque não quer dizer que não existirão. E eu te digo que Deus quer que existam, e certamente já estão em sua mente, ainda que meu amigo de Ockham negue que as ideias existam desse modo, e não porque podemos decidir pela natureza divina, mas justamente porque não podemos impor-lhe limite algum". Nem foi esta a única proposição contraditória que o ouvi enunciar: e mesmo agora que sou velho e mais sábio que naquele tempo, não compreendo definitivamente como ele pudesse ter tanta confiança em seu amigo de Ockham e ao mesmo tempo jurar sobre as palavras de Bacon, como costumava fazer. É verdade, no entanto, que aqueles eram tempos obscuros em que um homem sábio precisava pensar coisas contraditórias entre si. 

Bem, disse de frei Guilherme coisas insensatas talvez, como a recolher desde o início as impressões desconexas que eu tive então. Quem foi ele, e o que fez, meu bom leitor, poderás talvez deduzir melhor pelas ações que praticou nos dias que passamos na abadia. Não te prometi um desenho completo, porém um elenco de fatos (estes sim) miríficos e terríveis. 

Conhecendo assim dia a dia o meu mestre, passando as longas horas de marcha em longas conversas sobre as quais, conforme o caso, contarei pouco a pouco, atingimos as faldas do monte sobre o qual se erguia a abadia. E é hora que, como fizemos então, dela se aproxime minha narrativa, e possa minha mão não tremer quando começar a contar o que aconteceu em seguida.


TEXTO DE UMBERTO ECO PUBLICADO NO PORTAL UOL EM 17/12/2012


A "Magazine Littéraire", uma publicação mensal da França, dedicou um número recente a um único assunto: como a literatura trata o tema da morte. Eu o li com interesse, mas afinal fiquei desapontado. Alguns artigos podem ter tocado ideias com as quais não tinha familiaridade, mas em última instância eles apenas reiteraram uma tese bem conhecida: que além de abordar a ideia do amor a literatura sempre lidou com o conceito de morte.
Os artigos apontavam a presença da morte tanto nas narrativas do século passado como na literatura gótica pré-romântica, mas também poderiam ter citado a mitologia grega - talvez a morte de Heitor e o luto de Andrômaco - ou o sofrimento dos mártires em muitos textos medievais. Para não falar no fato de que a história da filosofia começa com a premissa do mais fundamental dos silogismos: "Todos os homens são mortais".
Talvez o problema tenha origem no fato de que as pessoas leem menos livros hoje do que nas gerações passadas. Seja qual for a causa, porém, perdemos nossa capacidade de aceitar a morte. A religião, a mitologia e os antigos rituais tornavam a morte, senão menos temível, pelo menos mais familiar para nós. Através de grandes celebrações fúnebres, do lamento dos enlutados e das grandes missas de réquiem, nos habituávamos ao conceito de morte. Éramos preparados para ela pelos sermões sobre o inferno, e ainda criança fui incentivado a ler trechos do "Companheiro da Juventude" que abordavam a morte.
Aquele texto, um manual de orações editado pelo padre do século 19 Dom Bosco, era um lembrete de que não sabemos onde ou quando a morte nos levará - em nossa cama, no trabalho, na rua; com um aneurisma estourado, uma febre, um terremoto ou algo totalmente diferente. Naquele momento sentiremos a cabeça atordoada, os olhos doloridos, a língua seca, as mandíbulas travadas, o peito pesado, o sangue congelado, a carne consumida, o coração traspassado. Daí a necessidade de praticar o que Dom Bosco chamou de Exercício para uma Morte Feliz: "Quando meus pés imóveis me disserem que minha carreira nesta vida está prestes a terminar... Quando minhas mãos trêmulas e insensíveis não puderem mais te segurar, oh, meu bom Crucifixo, e a contragosto eu o deixar cair sobre meu leito de sofrimento... Quando meus olhos estiverem enevoados e distraídos pelo horror da morte iminente... Quando minhas faces pálidas e cinzentas despertarem compaixão e terror nos que me virem, e meu cabelo, molhado e eriçado com o suor da morte, anunciar a proximidade do meu fim... Quando minha imaginação, agitada pelos horrendos e assustadores fantasmas, afundar em tristeza mortal... Quando eu tiver perdido o uso de todos os meus sentidos... gracioso Jesus, tem piedade de mim."
Isso é puro sadismo, alguém poderia dizer. Mas o que ensinamos a nossos contemporâneos hoje? Que a morte ocorre longe de nós, em hospitais, que os enlutados não necessariamente acompanham o caixão até o cemitério, que não vemos mais os mortos. Ou melhor, nós os vemos constantemente - sendo espancados, alvo de tiros ou explosões; caindo para o fundo de um rio com os pés metidos em concreto; deitados inertes na calçada, com as cabeças rolando na rua. Mas esses não são nossos próximos e queridos; são atores.
A morte é um espetáculo - certamente nos filmes e na televisão, mas também na vida real. Devoramos reportagens na mídia sobre uma jovem que foi estuprada e assassinada, ou sobre as vítimas de um "serial killer". Não vemos os corpos torturados, porque isso nos lembraria nossa própria morte. Mas vemos amigos em prantos levarem flores a um local de crime ou montando uma vigília à luz de velas. Ou, muito mais sádico, vemos repórteres baterem à porta de uma mãe enlutada para perguntar como ela "se sentiu" quando soube da morte do assassino de sua filha. A morte em si é mostrada apenas indiretamente, através de imagens de amizade e dor materna, o que nos afeta de forma menos visceral.
A morte quase desapareceu de nosso horizonte de experiência imediato. O resultado é que a maioria das pessoas ficará muito mais aterrorizada quando chegar a hora de enfrentar o acontecimento que é nosso destino desde que nascemos - um destino que homens mais sábios passaram suas vidas inteiras tentando aceitar.


Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


Para ler um artigo sobre o filme O nome da rosa, baseado na obra de Umberto Eco, clique aqui.



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