Curiosidades sobre a Academia Brasileira de Letras



1. Como funciona o processo de eleição de um "imortal"??
Uma vaga na ABL só é aberta com a morte de um de seus 40 membros. Ao fim da chamada Sessão de Saudade, em que o acadêmico morto é homenageado, é declarada oficialmente a vacância da cadeira. A partir de então, os interessados podem se candidatar num prazo de 60 dias. É preciso enviar uma correspondência à ABL com um currículo, formalizando o interesse. As eleições ocorrem cerca de um mês depois do encerramento das inscrições. Não há outra maneira de ingressar na Academia, ou seja, todos os interessados precisam passar pelo processo eleitoral.


2. Quem tem direito a votar?
Inspirada no modelo da Academia Francesa, a ABL é composta por 40 membros efetivos e perpétuos. Além desses, a Academia possui 20 membros correspondentes estrangeiros. Mas apenas os efetivos podem votar nas eleições. Portanto, caso haja apenas uma vaga em aberto, 39 integrantes têm direito a voto. Os membros que não puderem comparecer à sede da ABL, no Rio, na data da eleição têm a opção de votar por carta.


3. O voto é aberto ou secreto?
A eleição que define quem será o novo imortal é realizada em votação secreta. Os membros da academia depositam seu voto em uma urna, que é aberta pelo presidente da Casa. Oficialmente, ninguém deveria revelar sua preferência. No entanto, em várias ocasiões, alguns membros declaram abertamente sua intenção. Em alguns casos, a preferência por um candidato é tão clara que é possível contabilizar seus votos antes mesmo das eleições.


4. Quantos votos são necessários para eleger o novo membro?
O novo membro é eleito por maioria absoluta de votos - ou seja, metade mais um. Se o número de membros efetivos for ímpar, a maioria absoluta será representada pela metade do número superior àquele. Em outras palavras, em uma eleição de que participam 39 acadêmicos, o novo imortal será escolhido com 20 votos.


5. Qualquer um pode se candidatar a uma vaga?
De acordo com as regras da Academia, para se candidatar é preciso ter nacionalidade brasileira e ter publicado ao menos um obra de reconhecido valor cultural ou literário. Desde sua origem, porém, a ABL previa a reserva de alguns assentos para "personalidades", pessoas que se destacassem em outras áreas. Essa determinação foi expressa na correspondência trocada, por exemplo, entre Machado de Assis e Joaquim Nabuco às vésperas da criação da instituição, em 1897. Isso significa que, na prática, o destaque em áreas políticas ou sociais é levado mais em conta do que, de fato, suas obras literárias. Isso explica a presença de personagens como Ivo Pitanguy, que como escritor é um ótimo cirurgião plástico, ou o ilustre desconhecido Tarcísio Padilha.


6. Há algum tipo de campanha antes da eleição?
Não existe nenhum tipo de campanha declarada. Mas normalmente observa-se uma certa adequação ao ritual da ABL. Comparecer aos tradicionais chás de quinta-feira, participar de atividades no Petit Trianon - o edifício sede -, escrever cartas, telefonar, enviar livros ou visitar os imortais podem garantir mais popularidade ao candidato. Os imortais dizem ainda que prezam pela discrição do candidato durante a campanha, mas costumam se lançar com energia a conchavos durante o processo decisório.


7. É preciso esperar uma vaga para fazer campanha?
Sim, declarar-se interessado antes mesmo da abertura de uma vaga é considerada uma atitude agourenta. Afinal, ficaria a impressão de que o candidato espera pela morte de um dos imortais. Um episódio relacionado ocorreu com o diplomata Geraldo Holanda Cavalcanti, que enviou à ABL uma carta informando o desejo fazer parte da Academia. Os membros consideraram a manifestação grosseira e imperdoável.


8. Quem não for eleito pode se candidatar de novo?
Sim. Isso já aconteceu diversas vezes. Inclusive com o hoje imortal Paulo Coelho. Ele não foi eleito da primeira vez que se candidatou. De volta ao páreo em 2002, bateu o cientista político Hélio Jaguaribe por 22 votos a 15. A disputa foi uma das que mais mexeu com a Academia e também com a opinião pública. Insatisfeitos com a candidatura do "Mago", críticos literários lançaram um desafio à Academia: ou rejeitavam Coelho, por entender que ele não tinha cacife para figurar em uma Academia de Letras séria, ou o aceitavam, reconhecendo que a instituição em si é que não era séria. A ABL aceitou Coelho, alegando que ele daria visibilidade nacional e internacional à Casa, por tratar-se de um best seller.


9. Qual o ritual de posse do novo 'imortal'?
A posse do novo imortal acontece no salão nobre do Petit Trianon. O novo membro veste, então, o tradicional fardão, traje verde-escuro, bordado a ouro e acompanhado por um chapéu de veludo preto com plumas brancas. É padrão que os discursos de posse se restrinjam a tecer loas aos ex-donos da cadeira que o novo imortal passa a ocupar. Mas há exceções. Uma delas ocorreu na posse do diplomata Roberto Campos, em 1999, que atacou duramente seu antecessor, o dramaturgo Dias Gomes. Mais: ele classificou de ridícula a celeuma ideológica em torno de sua eleição, na qual a viúva de Dias Gomes, Bernadeth Lyzio, fez campanha para que o marido, conhecido por suas posições de esquerda, não fosse sucedido por um homem "de direita". Outro episódio sobre a posse já está ligado ao campo sobrenatural. Eleito para a Academia em 1963, Guimarães Rosa protelou o quanto pôde a cerimônia. Ele dizia que, empossado, morreria em seguida. De fato, o autor de Grande Sertão: Veredas morreu três dias após assumir seu assento, em 1967.


10. Alguém já se recusou a participar da disputa?
Grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade e Clarice Lispector nunca se candidataram. Já o escritor Monteiro Lobato tentou em 1926. Decepcionado com a derrota, se negou a aceitar uma indicação para a candidatura em 1944. Com o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aconteceu uma situação diferente. Após a morte de Roberto Marinho, em 2003, a viúva Lily manifestou o desejo de que o sociólogo tomasse posse da cadeira do falecido. FHC agradeceu e disse que não disputaria a indicação. A briga ficou entre o escritor Fernando Morais e o vice de FHC, Marco Maciel, que venceu. Há ainda aqueles que saíram da disputa para favorecer alguém - ou entraram nela para atrapalhar. Nas duas situações, o exemplo é o mesmo: o jornalista Joel Silveira. Em 2000, ele renunciou à candidatura em favor do jurista Raimundo Faoro. No ano seguinte, apresentou seu nome em protesto à chapa de Zélia Gattai, que queria assumir a cadeira deixada pelo marido, Jorge Amado. A candidatura de Zélia dividiu a ABL, mas a viúva levou a melhor.


11. Afinal, o que significa ser um "imortal"?
O termo imortal foi retirado da Academia Francesa. A palavra foi retirada da frase À l'immortalité, que está estampada no selo oficial da Academia. Na versão brasileira, ser imortal significa ser ou já ter sido membro da Casa de Machado de Assis. Além de ter garantidos para o resto da vida os famosos chás e bolinhos das tardes de quinta-feira, nas quais os acadêmicos trocam amenidades e, às vésperas de eleições, farpas.


12. Afinal, qual é a função da ABL?
Oficialmente, as funções da Academia Brasileira de Letras são zelar pela língua portuguesa e divulgar a literatura nacional de alto nível. Assim, ela faz publicações de livros, distribui prêmios, elabora dicionários, analisa e referenda mudanças gramaticais ou ortográficas do idioma. Porém, as críticas de que há tempos a Casa de Machado de Assis não produz algo de relevância cultural são procedentes.

FONTE: Revista Veja


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