Os textos da minha infância


Todos nós trazemos, no veio das nossas lembranças, alguns dos textos que lemos — ou que leram para nós — na nossa vida de menino. E eu pretendo falar um pouco sobre eles. Quero retornar ao momento em que nasceu, aqui no meu de dentro, um eu-leitor. Quero retornar ao momento em que nasceram para mim os textos da minha infância.

Metade dela eu fui um menino da rua. Desses que correm, soltam pipa e fogem de casa, mas estão sempre ao alcance da voz materna. A outra metade eu fui o menino dos livros. Veja bem, eu fui "o" menino. Artigo definido, singular. Aquele que juntava, que pedia, que catava no lixo o saber e o lazer que o pai não podia comprar.

Os primeiros volumes chegaram de uma maneira engraçada e antilírica. Eram livros didáticos que uma estudante deixou no quintal da minha avó, em meio a uma incontrolável dor de barriga, quando provavelmente voltava da escola, à noite. Ao descobrir que aquele quintal era também um galinheiro — e talvez justamente porque as galinhas a descobriram e começaram a cantar, denunciando a sua presença — ela fugiu toda medrosa e deixou no chão os livros que carregava consigo. Neles, aos oito anos, eu descobri as palavras, os números, os nomes das galáxias, dos planetas e das estrelas; o dos países, dos estados e cidades; o nome dos sistemas do corpo humano, dos nossos órgãos e doenças; o nome dos reis, dos presidentes, dos navegantes; o nome dos escritores e de suas histórias. Com eles, descobri o poder da Palavra escrita. E comecei a ler...

E comecei a ler, porque fiquei doente. Santa doença! Prova cabal de que há males que vêm pra bem. E aqueles livros que antes cabiam numa gaveta foram brotando, brotando e dando cria, e por volta dos dez anos o meu brinquedo preferido eram três caixotes de maçã que — colocados um em cima do outro — me serviam de estante.

A minha infância foi pobre, foi pobre e tão feliz que eu queria que todos os meninos do mundo tivessem sido tão pobres quanto eu. Queria que todos os meninos do mundo tivessem aqueles caixotes cujo cheiro ainda guardo comigo. Queria que todos os meninos do mundo sonhassem, como eu sonhei, com um quarto para ler à noite. Se eles sonhassem muito, mas muito mesmo, poderiam descobrir que para ler à noite não é preciso um quarto. É só colocar uma lâmpada dentro de um guarda-roupas velho e fazer esse guarda-roupas velho caber dentro da velha casa. Afinal, foi isso que eu fiz.

Dentro do meu guarda-roupas com lâmpada não havia uma passagem para Nárnia. Mas lá eu reencontrava o burrinho alpinista, Rosinha, Marcelo e Marquinho. Brincava com o seu barquinho amarelo, e me embevecia com a sua galinha botando ovo azul, com seus brinquedos da noite,  com suas bolhas de sabão... Entrava no jipe e ia para aquela serra dos dois meninos, aquela ilha perdida, com os pequenos jangadeiros, enfrentando os perigos do mar. Estava com Xisto, Atíria, Pimpa, Léo, Gino, Angela, Guima,Vera, Lúcia, Quico, Oscar... Era criança na escola com Cazuza, na sala de Dona Neném. Corria atrás do gato malhado e da andorinha sinhá... Cuidava do cachorrinho machucado da Chiquinha... Trilhava um caminho suave, era amigo do menino prodígio, lia o bilhete escondido de Pitu, dormia na sobra das árvores, na manhã no grotão. E acompanhava Pedrinho em suas caçadas ao Saci. E morria de medo da Cuca. E aprendia a geografia de dona Benta e a gramática da Emília ao lado do poço do Visconde. E comia os bolinhos de chuva da Tia Nastácia. E namorava Narizinho, colocando em sua boca o doce das jabuticabas.

Hoje eu sou um homem dormindo no meio dos livros, que às vezes lê coisas inúteis e nem sempre consegue cumprir a dura missão que a família transfere à escola e a escola transfere ao professor: a de despertar nos jovens alunos o gosto pela leitura. Mas a vontade que eu tenho é a de voltar para dentro do guarda-roupas da infância e ser apenas um menino que lê. E queria ter novamente todos os meus brinquedos e todos os textos que li. E queria os mesmos olhos de menino, os olhos da inocência e da surpresa, para que verdadeiramente aqueles textos fossem os meus. Eles, todos eles... Pois foi através deles que hoje posso me chamar de eu.


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