D. Dinis, o Rei Trovador

Há 688 anos, morria D. Dinis, Rei de Portugal e um dos principais nomes do Trovadorismo.

BIOGRAFIA
Sexto rei de Portugal (1279-1325), nascido em Lisboa, conhecido como o Rei Trovador ou o Rei Lavrador, devido a ter prestado grande dedicação ao desenvolvimento da agricultura. Filho de Afonso III e de sua segunda mulher, Beatriz, e neto de Afonso X de Castela, casou-se com Isabel de Aragão, posteriormente chamada a Rainha Santa pelas suas excepcionais virtudes. Desde cedo foi preparado para ser rei pelo seu pai e quando subiu ao trono português, aclamado em Lisboa (1279), impôs sua autoridade e consolidou a unificação administrativa e cultural da nação. Quando subiu ao trono imediatamente procurou normalizar a situação com a Igreja Católica, jurando ao Papa Nicolau III proteger os interesses de Roma em Portugal. Extinguiu a Ordem do Templo e criou a Ordem de Cristo ligada à Ordem dos Templários. Foi essencialmente um rei administrador e não guerreiro, pois embora tenha se envolvido na guerra com Castela (1295), desistiu dela em troca das vilas de Serpa e Moura. Pelo Tratado de Alcanises (1297) firmou a Paz com Castela, definindo-se nesse tratado as fronteiras atuais entre os dois países ibéricos. Para estimular a agricultura, distribuiu terras a colonos, mandou construir canais e secar pântanos e limitou os privilégios territoriais da igreja e, por isso, foi cognominado O Lavrador ou O Rei-Agricultor. Começou a interessar-se também pelo desenvolvimento do comércio marítimo e aperfeiçoamento dos processos de navegação e contratou marinheiros italianos para virem trabalhar em Portugal e fez convênios comerciais com outros monarcas. Durante seu longo reinado, o comércio também prosperou, com o aumento da extração de metais, a proteção às feiras e a reorganização da Marinha. Beneficiou a literatura e mandou traduzir livros latinos e árabes, inclusive a Geografia de Razis. Adotou o vernáculo nos documentos oficiais e, com o apoio do Papa, criou a primeira universidade portuguesa (1290), que funcionou entre Lisboa e Coimbra, até se fixar nesta última cidade como a famosa Universidade de Coimbra. Começou a usar-se a língua portuguesa nos documentos escritos e foi o primeiro rei português a assinar os seus documentos com o nome completo. Provavelmente o primeiro rei português não analfabeto, foi poeta e protetor de trovadores e jograis e também apelidado de O Rei-Poeta ou O Rei-Trovador pelas cantigas que compôs e pelo desenvolvimento da poesia trovadoresca a que se assistiu no seu reinado. Compôs cerca de 140 cantigas líricas e satíricas, e permaneceu no poder até sua morte, em Santarém, e está sepultado no Convento de São Dinis, em Odivelas. Apesar de ser um bom rei, os últimos anos do seu reinado foram marcados por conflitos internos. O herdeiro, futuro D. Afonso IV, achou que o rei favoreceria seu filho bastardo, Afonso Sanches, e entrou em conflito com o pai, mas não chegou a haver guerra civil.

FONTE: DEC/UFCG

CANTIGAS DE D. DINIS (Para entender mais sobre as cantigas trovadorescas, clique aqui e aqui).

Chegou-m'ora aqui recado
Dom Dinis
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 558, Cancioneiro da Vaticana 161

Chegou-m'ora aqui recado,
amiga, do voss'amigo,
e aquel que falou migo
diz-mi que é tam coitado
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Diz que hoje, tercer dia,
bem lhi partírades morte
mais houv'el coita tam forte
e tam coitad'er jazia
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
Com mal que lhi vós fezestes
jurou-m', amiga fremosa,
que, pero vós poderosa
fostes d'el quanto quisestes,
que per quanta poss'havedes
já o guarir nom podedes.
E gram perda per fazedes
u tal amigo perdedes.

COMENTÁRIO: Cantiga de amigo; de refrão, com finda. Uma amiga conta à rapariga a tristeza do seu amigo.


Amiga, muit'ha gran sazón
Dom Dinis
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 157, Cancioneiro da Vaticana 554

Amiga, muit'ha gran sazón
que se foi d'aquí con el-rei
meu amigo, mais ja cuidei
mil vezes no meu coraçón
que algur morreu con pesar,
pois non tornou migo falar.
Porque tarda tan muito lá
e nunca me tornou veer,
amiga, si veja prazer,
máis de mil vezes cuidei ja
que algur morreu con pesar,
pois non tornou migo falar.
Amiga, o coraçón seu
era de tornar ced'aquí,
u visse os meus olhos en mí,
e por én mil vezes cuid'eu
que algur morreu con pesar,
pois non tornou migo falar.

COMENTÁRIO: Cantiga de amigo; de refrão. Dirigindo-se a uma amiga, a rapariga pensa que o seu amigo, que se foi com o rei, deveu de morrer de pena, visto que não volta falar com ela


Preguntar-vos quero por Deus
Dom Dinis
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 525b, Cancioneiro da Vaticana 128

Preguntar-vos quero por Deus
senhor fremosa, que vos fez
mesurada e de bom prez,
que pecados forom os meus
que nunca tevestes por bem
de nunca mi fazerdes bem.
Pero sempre vos soub'amar
des aquel dia que vos vi,
mais que os meus olhos em mi,
e assi o quis Deus guisar,
que nunca tevestes por bem
de nunca mi fazerdes bem.
Des que vos vi, sempr'o maior
bem que vos podia querer
vos quigi, a todo meu poder,
e pero quis Nostro Senhor
que nunca tevestes por bem
de nunca mi fazerdes bem.
Mais, senhor, ainda com bem
se cobraria bem por bem.

COMENTÁRIO: Cantiga de amor; de refrão, com finda. O poeta pergunta à amada por qual razão ela não corresponde ao seu grande amor.


Senhor, cuitad'é o meu coraçom
Dom Dinis
Cancioneiro da Biblioteca Nacional 523b, Cancioneiro da Vaticana 126

Senhor, cuitad'é o meu coraçom
por vós, e moiro, se Deus mi perdom,
porque sabede que des que entom
vos vi, desi
nunca coita perdi.
Tanto me coita e tarix[1] mal Amor
que me mata, seed'em sabedor;
e tod'aquesto é des que, senhor,
vos vi, desi
nunca coita perdi.
Ca de me matar Amor nom m'é greu,
tanto mal sofro já em poder seu;
e tod'aquest'é, senhora, des quand'eu
vos vi, desi
nunca coita perdi.

COMENTÁRIO: Cantiga de amor; de refrão. Dirigindo-se à amada, o poeta insiste sobre a sua coita desde que a viu.

Abaixo, um vídeo com a declamação de uma cantiga de amor de D. Dinis




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Gibran Kahlil Gibran



Há 130 anos nascia Gibran Kahlil Gibran, poeta libanês, cujos escritos, eivados de profunda e simples beleza e espiritualidade, alcançaram a admiração do público de todo o mundo.

Abaixo, você encontra a biografia do autor, alguns de seus textos, um vídeo em que a atriz Letícia Sabatella declama o poema "Na floresta" (com trilha incidental de Marcus Viana) e um link para ler O profeta, obra-prima de Gibran Kahlil Gibran.

BIOGRAFIA:
Seu nome completo é Gibran Kahlil Gibran. Assim assinava em árabe. Em inglês, preferiu a forma reduzida e ligeiramente modificada de Khalil Gibran. É mais comumente conhecido sob o simples nome de Gibran.

1883 - Nasceu em 6 de janeiro, em Bsharri, nas montanhas do Líbano, a uma pequena distância dos cedros milenares. Tinha oito anos quando, um dia, um temporal se abate sobre sua cidade. Gibran olha, fascinado, para a natureza em fúria e, estando sua mãe ocupada, abre a porta e sai a correr com os ventos. Quando a mãe, apavorada, o alcança e repreende, ele lhe responde com todo o ardor de suas paixões nascentes: "Mas, mamãe, eu gosto das tempestades. Gosto delas. Gosto!" (Um de seus livros em árabe será intitulado Temporais).

1894 - Emigra para os Estados Unidos, com a mãe, o irmão Pedro e as duas irmãs Mariana e Sultane. Vão morar em Boston. O pai permanece em Bsharri.

1898/1902 - Vota ao Líbano para completar seus estudos árabes. Matricula-se no Colégio da Sabedoria, em Beirute. Ao diretor, que procura acalmar sua ambição impaciente, dizendo-lhe que uma escada deve ser galgada degrau por degrau, Gibran responde: "Mas as águias não usam escadas!"

1902/1908 - De novo em Boston. Sua mãe e seu irmão morrem em 1903. Gibran escreve poemas e meditações para Al-Muhajer (O Emigrante), jornal árabe publicado em Boston. Seu estilo novo, cheio de música, imagens e símbolos, atrai-lhe a atenção do Mundo Árabe. Desenha e pinta numa arte mística que lhe é própria. Uma exposição de seus primeiros quadros desperta o interesse de uma diretora de escola americana, Mary Haskell, que lhe oferece custear seus estudos artísticos em Paris.

1908/1910 - Em Paris. Estuda na Académie Julien. Trabalha freneticamente. Freqüenta museus, exposições, bibliotecas. Conhece Auguste Rodin. Uma de suas telas é escolhida para a Exposição das Belas-Artes de 1910. Nesse ínterim, morrem seu pai e sua irmã Sultane. 1910 - Volta a Boston e, no mesmo ano, muda-se para Nova York, onde permanecerá até o fim da vida. Mora só, num apartamento sóbrio que ele e seus amigos chamam  As-Saumaa (O Eremitério). Mariana, sua irmã, permanece em Boston. Em Nova York, Gibran reúne em volta de si uma plêiade de escritores libaneses e sírios que, embora estabelecidos nos Estados Unidos, escrevem em árabe com idênticos anseios de renovação. O grupo forma uma academia literária que se intitula Ar-Rabita Al-Kalamia (A Liga Literária), e que muito contribuiu para o renascimento das letras árabes. Seus porta-vozes foram, sucessivamente, duas revistas árabes editadas em Nova York: Al-Funun (As Artes) e As-Saieh (O Errante).

1905/1920 - Gibran escreve quase que exclusivamente em árabe e publica sete livros nessa língua: 1905, A Música; 1906, As Ninfas do Vale; 1908, Espíritos Rebeldes; 1912, Asas Partidas; 1914, Uma Lágrima e um Sorriso; 1919, A Procissão; 1920, Temporais. (Após sua morte, será publicado u m oitavo livro, sob o título de Curiosidades e Belezas, composto de artigos e histórias já aparecidas em outros livros e de algumas páginas inéditas).

1918/1931 - Gibran deixa, pouco a pouco, de escrever em árabe e dedica-se ao inglês, no qual produz também oito livros: 1918, O Louco; 1920, O Precursor; 1923, O Profeta; 1927, Areia e Espuma; 1928, Jesus, o Filho do Homem; 1931, Os Deuses da Terra. (Após sua morte serão publicados mais dois: 1932, O Errante; 1933, O Jardim do Profeta.) Todos os livros em inglês de Gibran foram lançados por Alfred A. Knopf, dinâmico editor norte-americano com inclinação para descobrir e lançar novos talentos. Ao mesmo tempo em que escreve, Gibran se dedica a desenhar e pintar. Sua arte, inspirada pelo mesmo idealismo que lhe inspirou os livros, distingue-se pela beleza e a pureza das formas. Todos os seus livros em inglês foram por ele ilustrados com desenhos evocativos e místicos, de interpretação às vezes difícil, mas de profunda inspiração. Seus quadros foram expostos várias vezes com êxito em Boston e Nova York. Seus desenhos de personalidades históricas são também célebres.

1931 - Gibran morre em 10 de abril, no Hospital São Vicente, em Nova York, no decorrer de uma crise pulmonar que o deixara inconsciente.

TEXTOS DE GIBRAN KAHLIL GIBRAN

Amai-vos...

Amai-vos um ao outro,
mas não façais do amor um grilhão.

Que haja, antes, um mar ondulante
entre as praias de vossa alma.

Enchei a taça um do outro,
mas não bebais da mesma taça.

Dai do vosso pão um ao outro,
mas não comais do mesmo pedaço.

Cantai e dançai juntos,
e sede alegres,

mas deixai
cada um de vós estar sozinho.

Assim como as cordas da lira
são separadas e,

no entanto,
vibram na mesma harmonia.

Dai vosso coração,
mas não o confieis à guarda um do outro.

Pois somente a mão da Vida
pode conter vosso coração.

E vivei juntos,
mas não vos aconchegueis demasiadamente.

Pois as colunas do templo
erguem-se separadamente.

E o carvalho e o cipreste
não crescem à sombra um do outro.

Gibran Kahlil Gibran -
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Divina Música!

Filha da Alma e do Amor.
Cálice da amargura
e do Amor.
Sonho do coração humano,
fruto da tristeza.
Flor da alegria, fragrância
e desabrochar dos sentimentos.
Linguagem dos amantes,
confidenciadora de segredos.
Mãe das lágrimas do amor oculto.
Inspiradora de poetas, de compositores
e dos grandes realizadores.
Unidade de pensamento dentro dos fragmentos
das palavras.
Criadora do amor que se origina da beleza.
Vinho do coração
que exulta num mundo de sonhos.
Encorajadora dos guerreiros,
fortalecedora das almas.
Oceano de perdão e mar de ternura.
Ó música.
Em tuas profundezas
depositamos nossos corações e almas.
Tu nos ensinaste a ver com os ouvidos
e a ouvir com os corações.
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Os Filhos (Do Livro "O Profeta")

Uma mulher que carregava o filho nos braços disse: "Fala-nos dos filhos."
E ele falou:
         
Vossos filhos não são vossos filhos.          
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por si mesma.          
Vêm através de vós, mas não de vós.          
E embora vivam convosco, não vos pertencem.          
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos pensamentos,          
Porque eles têm seus próprios pensamentos.          
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;          
Pois suas almas moram na mansão do amanhã,          
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.          
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não procureis fazê-los como vós,          
Porque a vida não anda para trás e não se demora com os dias passados.          
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são arremessados como flechas vivas.          
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos estica com toda a sua força        
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para longe.          
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja vossa alegria:          
Pois assim como ele ama a flecha que voa,          
Ama também o arco que permanece estável.
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O Amor

E alguém disse:
Fala-nos do Amor:

- Quando o amor vos fizer sinal, segui-o;
ainda que os seus caminhos sejam duros e difíceis.
E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos;
ainda que a espada escondida na sua plumagem
vos possa ferir.

E quando vos falar, acreditai nele;
apesar de a sua voz
poder quebrar os vossos sonhos
como o vento norte ao sacudir os jardins.

Porque assim como o vosso amor
vos engrandece, também deve crucificar-vos
E assim como se eleva à vossa altura
e acaricia os ramos mais frágeis
que tremem ao sol,
também penetrará até às raízes
sacudindo o seu apego à terra.

Como braçadas de trigo vos leva.
Malha-vos até ficardes nus.
Passa-vos pelo crivo
para vos livrar do joio.
Mói-vos até à brancura.
Amassa-vos até ficardes maleáveis.

Então entrega-vos ao seu fogo,
para poderdes ser
o pão sagrado no festim de Deus.

Tudo isto vos fará o amor,
para poderdes conhecer os segredos
do vosso coração,
e por este conhecimento vos tornardes
o coração da Vida.

Mas, se no vosso medo,
buscais apenas a paz do amor,
o prazer do amor,
então mais vale cobrir a nudez
e sair do campo do amor,
a caminho do mundo sem estações,
onde podereis rir,
mas nunca todos os vossos risos,
e chorar,
mas nunca todas as vossas lágrimas.

O amor só dá de si mesmo,
e só recebe de si mesmo.

O amor não possui
nem quer ser possuído.

Porque o amor basta ao amor.

E não penseis
que podeis guiar o curso do amor;
porque o amor, se vos escolher,
marcará ele o vosso curso.

O amor não tem outro desejo
senão consumar-se.

Mas se amarem e tiverem desejos,
deverão se estes:
Fundir-se e ser um regato corrente
a cantar a sua melodia à noite.

Conhecer a dor da excessiva ternura.
Ser ferido pela própria inteligência do amor,
e sangrar de bom grado e alegremente.

Acordar de manhã com o coração cheio
e agradecer outro dia de amor.

Descansar ao meio dia
e meditar no êxtase do amor.

Voltar a casa ao crepúsculo
e adormecer tendo no coração
uma prece pelo bem amado,
e na boca, um canto de louvor.

Khalil Gibran

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Ainda ontem pensava que não era

Ainda ontem pensava que não era
mais do que um fragmento trémulo sem ritmo
na esfera da vida.
Hoje sei que sou eu a esfera,
e a vida inteira em fragmentos rítmicos move-se em mim.

Eles dizem-me no seu despertar:
" Tu e o mundo em que vives não passais de um grão de areia
sobre a margem infinita
de um mar infinito."

E no meu sonho eu respondo-lhes:

"Eu sou o mar infinito,
e todos os mundos não passam de grãos de areia
sobre a minha margem."

Só uma vez fiquei mudo.
Foi quando um homem me perguntou:
"Quem és tu?"

Kahlil Gibran

FONTE: Para ler e pensar.

Abaixo, um texto de Kahlil Gribran, declamado por Letícia Sabatella com música de Marcos Viana.


Para ler "O profeta", obra-prima de Kahlil Gibran, clique aqui.

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Incomparável extravagância de Cony vence o lugar-comum


MARCELO COELHO
COLUNISTA DA FOLHA

Carlos Heitor Cony reúne neste livro textos mais longos do que os que normalmente se publicam nos jornais de hoje. Alguns deles, como as apresentações que fez para o "Fausto", de Goethe, ou para "O Fenômeno Humano", de Teilhard de Chardin, já apareceram na série "As Obras-primas que Poucos Leram".

Tratava-se de memorável iniciativa da revista "Manchete" na década de 1970, que contou com a colaboração, por exemplo, de Otto Maria Carpeaux, Raymundo Magalhães Jr. e Ruy Castro.

Em quatro tomos, esse trabalho coletivo de divulgação literária foi reeditado pela Record há alguns anos.

Para este volume, Cony selecionou artigos sobre Machado de Assis, Guimarães Rosa, Victor Hugo, Tomás de Aquino e vários outros, ao lado um estudo sobre Carlitos, que ocupa mais ou menos a metade de toda a coleção.

Escrever sobre figuras desse porte traz o risco do lugar-comum. Na época da publicação desses textos, Carlos Heitor Cony ainda refreava um pouco a própria e incomparável extravagância, que tanto cativa os leitores de suas crônicas na Folha hoje.

Seu ensaio sobre Charles Chaplin, para o "Jornal do Brasil", revela um autor preocupado em seguir, ainda que de longe, as convenções do trabalho acadêmico.

"Quem era Chaplin?", pergunta-se Cony. "Um simples cômico? Um filósofo primitivo? Um agitador social? Um comunista?"

O autor continua, com um formalismo que não nos habituamos a reconhecer em suas páginas: "propomos, neste ensaio, uma interpretação aproximativa: a análise do personagem, do mito e de seu processo, complementada por uma breve sinopse biográfica, filmografia comentada e tanto quanto possível atualizada".

TRÁGICO

Cony se desincumbe da tarefa com paciência e método. Felizmente para o leitor, entretanto, sua impaciência e seus caprichos logo se manifestam, e a comparação brilhante, a ideia súbita, o detalhe bizarro vencem a convencionalidade jornalística.

É assim que, comparando Carlitos a Dom Quixote, o autor sustenta que, de ambos, Carlitos é o mais trágico.

O personagem de Cervantes poderia enganar-se, pensando ser um frango assado o que nada mais era do que uma bota sobre a mesa. Logo a ilusão se desfaria, diz Cony, e Dom Quixote reconheceria que a bota não passava de uma bota.

Já no filme "Em Busca do Ouro", Carlitos bem sabe que a bota é uma bota — e "quer mesmo comer a bota, a fome e a miséria juntas não lhe dão outra alternativa".

A desilusão, ou melhor, o convívio com o absurdo, marcam a atitude de Cony.

A isso se soma o humor carioca, que o faz lembrar, por exemplo, que alguns autores atribuíram o declínio de Roma ao excesso de banho morno.

Humor, apenas? Talvez mais: a parte da loucura em Chaplin e Cervantes, ou em Fellini e Mark Twain, encontra em Cony alguém capaz de sentir vivamente o seu sabor.


Para ler mais informações sobre a obra, clique aqui.



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Genivaldo Catão Torquato lança o primeiro livro de poemas aos 83 anos


Aos 83 anos, o escritor Genivaldo Catão Torquato não deixa dúvidas: “A cabeça tá muito boa”, como ele referenda. Melhor ainda fica a satisfação, pelo primeiro livro publicado, Espelho d’alma, que, com lançamento em Fortaleza, rendeu a venda de 250 livros. Integrante da Academia Leonística de Cultura no Ceará, Torquato, seguindo um admirado ditado chinês (em torno de não perder oportunidades), casou a impressão de mil exemplares com obras sociais do Lions Clube, em consonância com preceitos religiosos demarcados pela leitura da obra. Desde os 17 anos, o paraibano de Campina Grande — motivado pela “paixonite dos 16 anos, daquela época em que era proibido pegar na mão” — fundou as bases poéticas percebidas em Espelho d’alma.

Folhas e mais folhas de papel, unidas pelo desejo de poetizar, foram objeto de realização para o autor, também coronel reformado do Exército Brasileiro. Autodidata, ele conta que todas “as fotos, alegorias e imagens” das 120 páginas do livro foram “esmaecidas” por ele mesmo, com uso de programas de computador. “Por toda minha vida, minhas principais funções foram ligadas à inteligência”, ressalta o ex-integrante da Escola Nacional de Informações, em meados dos anos de 1970, que também colaborou com crônicas para o Diário do Nordeste (Fortaleza). Há oito anos morador de Brasília (pela quarta vez), Torquato, vale lembrar, teve publicado no Correio o indignado texto batizado de Vergonha de ser brasileiro. “Mandei pro jornal, na seção de Carta do Leitor, contra o desmando e a esculhambação do governo. Também encaminhei a indignação ao Supremo Tribunal Federal e a todos os deputados e senadores”, conta, ao falar do texto de 2007.



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Milton Hatoum: Livros de verão e literatura de verdade



Há poucos meses atrás, na Feira do Livro de Guadalajara, vi uma cena que, de algum modo, diz muito sobre a literatura e a solidão, essas irmãs siamesas.

A Feira estava cheia de gente, mas não necessariamente de leitores. Ao visitar o estande de uma editora, vi um escritor de língua espanhola, sentado diante de uma mesinha, à espera de leitores. Ele tinha um ar desolado e conversava com uma mulher. Quando eu passava perto dos dois, ele perguntou à mulher onde estavam os leitores. Ela sorriu e apontou para uma fila de leitores excitados, que queriam comprar a edição espanhola de Cinquenta Tons de Cinza, o best-seller do momento.

É improvável que os leitores dessas historinhas de sexo e violência - ou sexo com violência - leiam romances de Conrad, de Dostoievski ou de Graciliano Ramos. Quantos se aventuram a ler Coração das Trevas, Crime e Castigo ou Infância? Para a maioria dos leitores, um livro de ficção é puro entretenimento, algo que não convida a pensar nas relações humanas, no jogo social e político, na passagem do tempo e nas contradições e misérias do nosso tempo, muito menos na linguagem, na forma que forja a narrativa. Talvez por isso o poeta espanhol Juan Ramón Jiménez tenha afirmado que a poesia é a arte da imensa minoria. Isso serve para a literatura e para todas as artes. Os poucos, mas felizardos espectadores da peça O Idiota, dirigida por Cibele Forjaz, sabem disso.

Flaubert costumava lamentar a época em que viveu: a crença entusiasmada e cega no progresso e na ciência, as batalhas fratricidas na França, a carnificina das guerras imperialistas, e a idiotice e bestialidade humanas, que ele explorou com ironia em sua obra. Em uma carta de sua vasta correspondência, escreveu que o ser humano não podia devorar o universo. Referia-se ao consumismo crescente na segunda metade do século 19.

O que o "Ermitão de Croisset" diria dos dias de hoje, quando a propaganda insidiosa na tevê não poupa nem as crianças e tudo gira em torno da vida de celebridades, de uma fulana famosa que teve um bebê, de sicrano que se separou de beltrana ou traiu uma fulaninha? Qual o interesse em saber que a princesa da Inglaterra está grávida?

Essas baboseiras são ainda mais graves num país como o Brasil, cuja modernidade manca ou incompleta exclui milhões de jovens de uma formação educacional consistente.

No começo da década de 1990, quando eu passava uma temporada em Saint-Nazaire, um jovem operário entrou no meu apartamento para consertar o vazamento de uma tubulação. Quando passou pela sala, viu um romance em cima da mesa e exclamou:

Ah, Stendhal. Li vários livros dele, e o que mais aprecio é esse mesmo: A Cartuxa de Parma.

E onde você os leu? Quando?

Aqui mesmo, ele disse. Na escola secundária.

Era uma das escolas públicas daquela pequena cidade no oeste da França.

Nicolas Sarkozy e outros presidentes conservadores tentaram prejudicar o ensino de literatura e ciências humanas na escola pública francesa, mas nenhum deles teve pleno êxito. Aprender a ler e a pensar criticamente é um dos preceitos de uma sociedade democrática, e esse mandamento republicano ainda vigora na França. O que os prefeitos e secretários de Educação dos quase 5.700 municípios brasileiros dizem a esse respeito?

A precariedade da educação pública é um dos problemas estruturais da América Latina. Até mesmo a Argentina, que já foi uma exceção honrosa, começa a padecer desse mal.

Comecei essa crônica evocando a solidão de um escritor em Guadalajara. Melhor assim: a solidão está na origem do romance moderno, é um de seus pilares constitutivos e faz parte do trabalho da imaginação do escritor e do leitor.

O tempo se encarrega de apagar todos os cinquenta tons de cinza, e ainda arrasta para o esquecimento os crepúsculos, cabanas e toda essa xaropada que finge ser literatura. Enquanto isso, Coração das Trevas, publicada há mais de um século, é uma das novelas mais lidas por leitores de língua inglesa.


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Hoje é aniversário de Umberto Eco


Hoje o mundo comemora o aniversário de um dos maiores nomes da ficção universal: o do escritor, filósofo, semiólogo, linguista e bibliófilo italiano Umberto Eco, nascido em 1932, em Alessandria, na Itália. Um autor de obras eruditas e densamente alusivas que figuram entre os maiores sucessos da ficção pós-moderna, além de trabalhos acadêmicos e livros infantis.

Ninguém diria, muito menos seu autor, que O Nome da Rosa, um romance de detetive passado num mosteiro medieval italiano tendo como pano de fundo o debate franciscano sobre a pobreza, faria tanto sucesso. Eco já era um respeitado semiólogo da Universidade de Bolonha quando o escreveu e declarou que sua inspiração foi a mera vontade que tinha de envenenar um monge.

Muito mais coisas acontecem, porém, nesse livro, do que seu autor levaria você a acreditar. Uma delas é o seu conhecimento íntimo do tema: seus monges pensam do jeito que os monges pensariam na densa rede intertextual de escrituras, comentários e filosofia neoplatônica que caracteriza as mentes medievais ilustradas. É uma obra extremamente densa para um romance histórico de mistério e assassinato.

Sucesso de vendas não tão expressivo quanto seu predecessor, O Pêndulo de Foucault está, não obstante, na origem de um gênero que, na estreia de O Código Da Vinci - de Dan Brown -, poderia ser para o século XXI o que o romance de detetive foi para o século XIX: o thriller histórico-artístico. Ele conta a história de três editores de livros ocultistas que inventam uma única teoria da conspiração abrangendo toda a História, das pirâmides ao nazismo. Eco escreve com raríssimo entusiasmo pelas ideias em si e por si; poucos escritores decidiram mais claramente compartilhá-las com seus leitores pelo prazer de fazê-lo. Eco foi laureado com inúmeros títulos honoríficos de instituições acadêmicas de todo o mundo.

PRINCIPAIS OBRAS
Romances 
O nome da Rosa (1980);
O pêndulo de Foucault (1988);
A ilha do dia anterior (1994);
Baudolino (2000);
A misteriosa chama da rainha Loana (2004)
Ficção infantil
A bomba e o general (1966)
Os três astronautas (1966)

FONTE: Adaptado de 501 grandes escritores, Editora Sextante

PRÓLOGO DE "O NOME DA ROSA"

No princípio era o Verbo e o Verbo estava junto a Deus, e o Verbo era Deus. Ele estava no princípio junto a Deus e o dever do monge fiel seria repetir cada dia com salmodiante humildade o único evento imodificável do qual se pode confirmar a incontrovertível verdade. Mas videmus nunc per speculum et in aenigmate e a verdade, ao invés de cara a cara, manifesta-se deixando às vezes rastros (ai, quão ilegíveis) no erro do mundo, tanto que precisamos calculá-lo, soletrando os verdadeiros sinais, mesmo lá onde nos parecem obscuros e quase entremeados por uma vontade totalmente voltada para o mal. 

Chegando ao fim desta minha vida de pecador, enquanto, encanecido, envelheço como o mundo, à espera de perder-me no abismo sem fundo da divindade silenciosa e deserta, participando da luz inconversível das inteligências angélicas, já entrevado com meu corpo pesado e doente nesta cela do caro mosteiro de Melk, apresto-me a deixar sobre este pergaminho o testemunho dos eventos miríficos e formidáveis a que na juventude me foi dado assistir, repetindo verbatim quanto vi e ouvi, sem me aventurar a tirar disso um desenho, como a deixar aos que virão (se o Anticristo não os preceder) signos de signos, para que sobre eles se exercite a prece da decifração. 

Conceda-me o Senhor a graça de ser testemunha transparente dos acontecimentos que tiveram lugar na abadia da qual é bem e piedoso se cale também afinal o nome, ao findar do ano do Senhor de 1327 em que o imperador Ludovico entrou na Itália para reconstituir a dignidade do sagrado império romano, segundo os desígnios do Altíssimo e a confusão do infame usurpador simoníaco e heresiarca que em Avignon lançou vergonha ao santo nome do apóstolo (falo da alma pecadora de Jacques de Cahors, que os ímpios honraram como João XXII). 

Quem sabe, para compreender melhor os acontecimentos em que me achei envolvido, é bom que eu recorde o que andava acontecendo naquele pedaço de século, do modo como o compreendi então, vivendo-o, e do modo como o rememoro agora, enriquecido de outras narrativas que ouvi depois - se é que a minha memória estará em condições de reatar os fios de tantos e tão confusos eventos. 

Desde os primeiros anos daquele século o papa Clemente V transferira a sede apostólica para Avignon deixando Roma às voltas com as ambições de senhores locais: e gradualmente a cidade santa da cristandade transformara-se num circo, ou num lupanar, dilacerada pelas lutas entre os seus maiores; dizia-se república, e não era, batida por bandos armados, submetida a violências e saques. Eclesiásticos que haviam se subtraído à jurisdição secular comandavam grupos de facínoras e rapinavam de espada em punho, prevaricavam e organizavam torpes tráficos. Como impedir que o Caput Mundi voltasse a ser, e justamente, a meta de quem quisesse vestir a coroa do sagrado império romano e restaurar a dignidade daquele domínio temporal que já fora dos césares? 

Eis pois que no ano de 1314 cinco príncipes germânicos elegeram, em Frankfurt, Ludovico da Baviera regente supremo do império. Mas no mesmo dia, na outra margem do Meno, o conde palatino do Reno e o arcebispo de Colônia tinham eleito à mesma dignidade Frederico da Áustria. Dois imperadores para uma única sede e um único papa para duas: situação que se tornou, na verdade, incentivo para grande desordem... 

Dois anos depois era eleito em Avignon o novo papa, Jacques de Cahors, velho de setenta e dois anos, justamente com o nome de João XXII, e queira o céu que nunca mais um pontífice assuma um nome assim, já tão malquisto pelos bons. Francês e devotado ao rei de França (os homens dessa terra corrompida estão sempre inclinados a favorecer os interesses dos seus, e são incapazes de olhar para o mundo inteiro como sua pátria espiritual), ele havia sustentado Filipe, o Belo, contra os cavaleiros templários, que o rei acusara (creio que injustamente) de vergonhosos crimes para apoderar-se de seus bens, cúmplice aquele eclesiástico renegado. Nesse ínterim, inserira-se na trama toda Roberto de Nápoles, que para manter o controle da península italiana convencera o papa a não reconhecer nenhum dos dois imperadores germânicos, e assim permanecera capitão-mor do estado da igreja. 

Em 1322 Ludovico, o Bávaro, batia seu rival Frederico. Ainda mais temeroso de um único imperador, do que o fora de dois, João excomungou o vencedor, e este, em contrapartida, denunciou o papa como herético. É preciso dizer que, justamente naquele ano, tivera lugar em Perúgia o capítulo dos frades franciscanos, e o geral deles, Michele de Cesena, acolhendo as instâncias dos "espirituais" (sobre os quais terei ainda ocasião de falar) proclamara como verdade de fé a pobreza de Cristo, que, se tinha possuído alguma coisa com seus apóstolos, Ele a tivera apenas como usus facti. Digna resolução, que visava salvaguardar a virtude e a pureza da ordem; mas que desagradou sobremaneira ao papa, por talvez entrever nisso um princípio que teria posto em risco as mesmas pretensões que ele, como chefe da igreja, tinha de contestar ao império o direito de eleger bispos, encampando para o sacro sólio o de investir o imperador. Fossem essas ou outras as razões que o moviam, em 1323 João condenou as proposições dos franciscanos com a decretal Cum inter nonnullos

Foi nesse ponto, imagino, que Ludovico viu nos franciscanos, já então inimigos do papa, poderosos aliados. Afirmando a pobreza de Cristo eles, de certo modo, revigoravam as ideias dos teólogos imperais, ou seja, de Marsilio de Pádua e Giovanni de Gianduno. E por fim, não muitos meses antes dos eventos que estou narrando, Ludovico, que havia chegado a um acordo com o vencido Frederico, descia na Itália, era coroado em Milão, entrava em conflito com os Visconti, que todavia o tinham acolhido com favor, sitiava Pisa, nomeava vigário-imperial Castruccio, duque de Lucca e Pistoia (e creio que fizesse mal porque não conheci jamais homem mais cruel, exceto talvez Uguccione de Faggiola), e já se aprestava a entrar em Roma, chamado por Sciarra Colonna, senhor do lugar. 

Eis como era a situação quando eu - então noviço beneditino no mosteiro de Melk - fui tirado da tranquilidade do claustro por meu pai, que se batia no séquito de Ludovico, não o último dentre seus barões, e que achou de bom alvitre levar-me consigo para que conhecesse as maravilhas da Itália e estivesse presente quando o imperador fosse coroado em Roma. Mas o sítio a Pisa absorveu-o nas lides militares. Eu tirei vantagem disso vagando, um pouco por ócio e um pouco por desejo de aprender, pelas cidades da Toscana, mas essa vida livre e sem regra não convinha, pensaram meus genitores, a um adolescente voltado à vida contemplativa. E a conselho de Marsílio, que começara a ter afeição por mim, decidiram pôr-me junto de um sábio franciscano, frei Guilherme de Baskerville, que estava para iniciar uma missão que o levaria a cidades famosas e abadias antiquíssimas. Tornei-me assim seu escrivão e discípulo ao mesmo tempo, nem tive do que me arrepender, porque fui com ele testemunha de acontecimentos dignos de serem consignados, como estou fazendo agora, para memória daqueles que virão. 

Eu não sabia então o que frei Guilherme estava procurando, e para dizer a verdade não o sei ainda hoje, e presumo que nem ele mesmo soubesse, movido que estava pelo desejo único da verdade, e pela suspeita - que sempre o vi alimentar - de que a verdade não fosse a que lhe aparecia no momento presente. E talvez naqueles anos ele estivesse distraído de seus estudos prediletos por incumbências do século. A missão de que Guilherme estava encarregado continuou desconhecida para mim durante toda a viagem, ou melhor, ele não me falou dela. Foi antes ouvindo trechos de conversas, que ele teve com os abades dos mosteiros em que nos detínhamos cada vez, que formei alguma ideia da natureza de sua tarefa. Mas não a compreendi de todo enquanto não atingimos nossa meta, como contarei mais tarde. Dirigíamo-nos para setentrião, mas nossa viagem não procedeu em linha reta e nos detivemos em várias abadias. Acontece que dobramos para ocidente enquanto nossa meta última ficava a oriente, quase seguindo a linha dos montes que de Pisa leva em direção aos caminhos de San Giacomo, parando numa terra em que os terríveis acontecimentos que lá ocorreram depois me desaconselham a identificar melhor, mas cujos senhores eram fiéis ao império e onde os abades de nossa ordem opunham-se de comum acordo ao papa herege e corrupto. A viagem durou duas semanas, entrecortadas por vários acontecimentos, e nesse tempo tive oportunidade de conhecer (nunca o suficiente, como sempre me convenço) meu novo mestre. 

Nas páginas que seguem não vou me deter em descrições de pessoas - a não ser quando a expressão de um rosto, ou um gesto, apareçam como sinais de muda mas eloquente linguagem - porque, como diz Boécio, nada é mais fugaz que a forma exterior, que perde o viço e muda como as flores do campo com o aparecimento do outono, e que sentido teria hoje dizer do abade Abbone, que tinha o olhar severo e as faces pálidas, quando agora ele e os que o rodeavam já são pó e do pó seu corpo tem o cinzento da morte (só a alma, queira Deus, resplandecendo de uma luz que não se apagará nunca mais)? Mas de Guilherme queria falar, e de uma vez por todas, porque dele também me tocaram as feições singulares, e é próprio dos jovens ligarem-se a um homem mais velho e mais sábio, não só pelo fascínio da palavra e agudez da mente, mas também pela forma superficial do corpo, que se torna querida, como acontece com a figura de um pai, de quem se estudam os gestos, os arrufos, e se espia o sorriso - sem que sombra alguma de luxúria contamine este modo (talvez o único puríssimo) de amor corporal. 

Os homens de outrora eram grandes e belos (agora são crianças e anões), mas esse fato é apenas um dos muitos que testemunham a desventura de um mundo que vai envelhecendo. A juventude não quer aprender mais nada, a ciência está em decadência, o mundo inteiro caminha de cabeça para baixo, cegos conduzem outros cegos e os fazem precipitar-se nos abismos, os pássaros se lançam antes de alçar voo, o asno toca lira, os bois dançam. Maria não ama mais a vida contemplativa e Marta não ama mais a vida ativa, Léa é estéril, Raquel tem olhos lúbricos, Catão frequenta os lupanares, Lucrécio vira mulher. Tudo está desviado do próprio caminho. Sejam dadas graças a Deus por eu naqueles tempos ter adquirido de meu mestre a vontade de aprender e o sentido do caminho reto, que se conserva mesmo quando o atalho é tortuoso. 

Era pois a aparência física de frei Guilherme de tal porte que atraía a atenção do observador mais distraído. Sua estatura superava a de um homem normal e era tão magro que parecia mais alto. Tinha olhos agudos e penetrantes; o nariz afilado e um tanto adunco conferia ao rosto a expressão de alguém que vigia, salvo nos momentos de torpor, dos quais falarei. Também o queixo denunciava nele uma vontade firme, mesmo se o rosto alongado e coberto de efélides - como vi frequentemente nos nascidos entre Hibérnia e Nortúmbria - pudesse às vezes exprimir incerteza e perplexidade. Percebi com o tempo que o que parecia insegurança era ao contrário apenas curiosidade, mas de início eu pouco sabia dessa virtude, que acreditava antes uma paixão da alma concupiscente, achando que a alma racional não devia dela se nutrir, alimentando-se tão-somente da verdade, coisa que (pensava eu) já se sabe desde o início. 

Criança que era, o que logo me tocara nele eram certos tufos de pelos amarelados que lhe escapavam das orelhas, e as sobrancelhas espessas e loiras. Podia ele ter cinquenta primaveras e já era portanto muito velho, mas movia o corpo incansável com uma agilidade que eu muitas vezes não tinha. Sua energia parecia inexaurível, quando o colhia um excesso de atividade. Mas de vez em quando, como se seu espírito vital participasse da natureza do camarão, recedia a momentos de inércia e o vi permanecer horas sobre o catre em sua cela, pronunciando a custo algum monossílabo, sem contrair um só músculo do rosto. Nessas ocasiões aparecia-lhe nos olhos uma expressão vazia e ausente, e teria suspeitado que estava sob o império de alguma substância vegetal capaz de provocar visões, se a patente temperança que lhe regulava a vida não me tivesse induzido a rejeitar tal pensamento. Não escondo todavia que, no curso da viagem, detivera-se às vezes na beira de um prado, nas bordas de uma floresta, para apanhar alguma erva (creio que sempre a mesma): e punha-se a mascá-la com rosto absorto. Trazia uma pequena provisão consigo, que comia nos momentos de maior tensão (e quão frequentes eles foram na abadia!). Uma vez que lhe perguntei de que se tratava, disse sorrindo que um bom cristão pode de vez em quando aprender com os infiéis; e quando lhe pedi para prová-la, respondeu-me que, assim como ocorre com os discursos, também entre humildes existem os paidikoi, ephebikoi e gynaikeioi e assim por diante, de modo que as ervas que são boas para um velho franciscano não são boas para um jovem beneditino. 

O tempo que estivemos juntos não tivemos oportunidade de levar vida muito regular: mesmo na abadia velamos à noite e caímos cansados de dia, nem participamos regularmente dos ofícios sagrados. Contudo, em viagem, raramente ficava acordado após as completas e tinha hábitos parcos. Algumas vezes, como aconteceu na abadia, passava o dia inteiro movendo-se no horto, examinando as plantas como se fossem crisóprasos ou esmeraldas, e o vi andando pela cripta do tesouro admirando um escrínio cravejado de esmeraldas e crisóprasos como se fosse uma touceira de estramônio. Outras vezes permanecia o dia todo na sala grande da biblioteca folheando manuscritos como a procurar neles nada além que o próprio prazer (enquanto ao nosso redor se multiplicavam os cadáveres dos monges horrivelmente assassinados). Um dia encontrei-o passeando no jardim sem objetivo aparente, como se não precisasse prestar contas a Deus de seus atos. Na Ordem haviam-me ensinado um modo bem diverso de dividir o meu tempo, e eu lhe disse isso. E ele respondeu que a beleza do cosmos é dada não só pela unidade na variedade, mas também pela variedade na unidade. 

Pareceu-me uma resposta ditada por deseducada empiria, mas aprendi em seguida que os homens de sua terra frequentemente definem as coisas de modo a parecer que a força iluminadora da razão tenha pouquíssima serventia. 

Durante o período que permanecemos na abadia vi-lhe sempre as mãos cobertas pela poeira dos livros, pelo ouro das miniaturas ainda frescas, pelas substâncias amareladas que tocara no hospital de Severino. Dava a impressão de não poder pensar a não ser com as mãos, coisa que então me parecia mais digna de um mecânico (e haviam-me ensinado que o mecânico é moechus, e comete adultério nos confrontos da vida intelectual a quem deveria estar unido em castíssimo esponsal): porém mesmo quando suas mãos tocavam coisas muito frágeis, como certos códices de miniaturas ainda frescas, ou páginas corroídas pelo tempo e friáveis como pão ázimo, ele possuía, parece-me, uma extraordinária delicadeza de tato, a mesma que usava para tocar suas máquinas. Direi, com efeito, que este homem curioso trazia consigo, em seu saco de viagem, instrumentos que não tinha visto até então, e que ele definia como suas maravilhosas máquinas. As máquinas, afirmava, são efeito da arte, que é macaco da natureza, e dela reproduzem não as formas mas a própria operação. Assim me explicou ele as maravilhas do relógio, do astrolábio e do ímã. Mas no início pensei tratar-se de bruxaria, e fingi dormir algumas noites serenas em que ele se punha (com um estranho triângulo na mão) a observar as estrelas. 

Os franciscanos que conhecera na Itália e na minha terra eram homens simples, quase sempre iletrados, e me espantei com ele por sua sabedoria. Mas ele me disse sorrindo que os franciscanos de suas ilhas eram de outra cepa: "Roger Bacon, que eu venero como mestre, nos ensinou que o plano divino passará um dia para a ciência das máquinas, que é magia natural e santa. E um dia, por força da natureza, poderão ser feitos instrumentos de navegação graças aos quais as naves irão unico homine regente, e bem mais rápidas que as impelidas a vela ou a remos; e haverá carros 'ut sine animali moveantur cum impetu inaestimabili, et instrumenta volandi et homo sedens im medio instrumentis revolvens aliquod ingenium per quod alae artificialiter composita aerem verberent, ad modum avis volantis'. E instrumentos minúsculos que erguerão pesos infinitos e veículos que permitirão viajar no fundo do mar." 

Quando lhe perguntei onde estavam essas máquinas, disse-me que já tinham sido feitas na antiguidade, e algumas até em nossos tempos: "Exceto o instrumento para voar, que não vi nem conheci quem o tivesse visto, mas conheço um sábio que o imaginou. E é possível fazer pontes que atravessem os rios sem colunas ou qualquer outro sustentamento e outras máquinas inauditas. Mas não precisas ficar preocupado se não existem ainda, porque não quer dizer que não existirão. E eu te digo que Deus quer que existam, e certamente já estão em sua mente, ainda que meu amigo de Ockham negue que as ideias existam desse modo, e não porque podemos decidir pela natureza divina, mas justamente porque não podemos impor-lhe limite algum". Nem foi esta a única proposição contraditória que o ouvi enunciar: e mesmo agora que sou velho e mais sábio que naquele tempo, não compreendo definitivamente como ele pudesse ter tanta confiança em seu amigo de Ockham e ao mesmo tempo jurar sobre as palavras de Bacon, como costumava fazer. É verdade, no entanto, que aqueles eram tempos obscuros em que um homem sábio precisava pensar coisas contraditórias entre si. 

Bem, disse de frei Guilherme coisas insensatas talvez, como a recolher desde o início as impressões desconexas que eu tive então. Quem foi ele, e o que fez, meu bom leitor, poderás talvez deduzir melhor pelas ações que praticou nos dias que passamos na abadia. Não te prometi um desenho completo, porém um elenco de fatos (estes sim) miríficos e terríveis. 

Conhecendo assim dia a dia o meu mestre, passando as longas horas de marcha em longas conversas sobre as quais, conforme o caso, contarei pouco a pouco, atingimos as faldas do monte sobre o qual se erguia a abadia. E é hora que, como fizemos então, dela se aproxime minha narrativa, e possa minha mão não tremer quando começar a contar o que aconteceu em seguida.


TEXTO DE UMBERTO ECO PUBLICADO NO PORTAL UOL EM 17/12/2012


A "Magazine Littéraire", uma publicação mensal da França, dedicou um número recente a um único assunto: como a literatura trata o tema da morte. Eu o li com interesse, mas afinal fiquei desapontado. Alguns artigos podem ter tocado ideias com as quais não tinha familiaridade, mas em última instância eles apenas reiteraram uma tese bem conhecida: que além de abordar a ideia do amor a literatura sempre lidou com o conceito de morte.
Os artigos apontavam a presença da morte tanto nas narrativas do século passado como na literatura gótica pré-romântica, mas também poderiam ter citado a mitologia grega - talvez a morte de Heitor e o luto de Andrômaco - ou o sofrimento dos mártires em muitos textos medievais. Para não falar no fato de que a história da filosofia começa com a premissa do mais fundamental dos silogismos: "Todos os homens são mortais".
Talvez o problema tenha origem no fato de que as pessoas leem menos livros hoje do que nas gerações passadas. Seja qual for a causa, porém, perdemos nossa capacidade de aceitar a morte. A religião, a mitologia e os antigos rituais tornavam a morte, senão menos temível, pelo menos mais familiar para nós. Através de grandes celebrações fúnebres, do lamento dos enlutados e das grandes missas de réquiem, nos habituávamos ao conceito de morte. Éramos preparados para ela pelos sermões sobre o inferno, e ainda criança fui incentivado a ler trechos do "Companheiro da Juventude" que abordavam a morte.
Aquele texto, um manual de orações editado pelo padre do século 19 Dom Bosco, era um lembrete de que não sabemos onde ou quando a morte nos levará - em nossa cama, no trabalho, na rua; com um aneurisma estourado, uma febre, um terremoto ou algo totalmente diferente. Naquele momento sentiremos a cabeça atordoada, os olhos doloridos, a língua seca, as mandíbulas travadas, o peito pesado, o sangue congelado, a carne consumida, o coração traspassado. Daí a necessidade de praticar o que Dom Bosco chamou de Exercício para uma Morte Feliz: "Quando meus pés imóveis me disserem que minha carreira nesta vida está prestes a terminar... Quando minhas mãos trêmulas e insensíveis não puderem mais te segurar, oh, meu bom Crucifixo, e a contragosto eu o deixar cair sobre meu leito de sofrimento... Quando meus olhos estiverem enevoados e distraídos pelo horror da morte iminente... Quando minhas faces pálidas e cinzentas despertarem compaixão e terror nos que me virem, e meu cabelo, molhado e eriçado com o suor da morte, anunciar a proximidade do meu fim... Quando minha imaginação, agitada pelos horrendos e assustadores fantasmas, afundar em tristeza mortal... Quando eu tiver perdido o uso de todos os meus sentidos... gracioso Jesus, tem piedade de mim."
Isso é puro sadismo, alguém poderia dizer. Mas o que ensinamos a nossos contemporâneos hoje? Que a morte ocorre longe de nós, em hospitais, que os enlutados não necessariamente acompanham o caixão até o cemitério, que não vemos mais os mortos. Ou melhor, nós os vemos constantemente - sendo espancados, alvo de tiros ou explosões; caindo para o fundo de um rio com os pés metidos em concreto; deitados inertes na calçada, com as cabeças rolando na rua. Mas esses não são nossos próximos e queridos; são atores.
A morte é um espetáculo - certamente nos filmes e na televisão, mas também na vida real. Devoramos reportagens na mídia sobre uma jovem que foi estuprada e assassinada, ou sobre as vítimas de um "serial killer". Não vemos os corpos torturados, porque isso nos lembraria nossa própria morte. Mas vemos amigos em prantos levarem flores a um local de crime ou montando uma vigília à luz de velas. Ou, muito mais sádico, vemos repórteres baterem à porta de uma mãe enlutada para perguntar como ela "se sentiu" quando soube da morte do assassino de sua filha. A morte em si é mostrada apenas indiretamente, através de imagens de amizade e dor materna, o que nos afeta de forma menos visceral.
A morte quase desapareceu de nosso horizonte de experiência imediato. O resultado é que a maioria das pessoas ficará muito mais aterrorizada quando chegar a hora de enfrentar o acontecimento que é nosso destino desde que nascemos - um destino que homens mais sábios passaram suas vidas inteiras tentando aceitar.


Tradutor: Luiz Roberto Mendes Gonçalves


Para ler um artigo sobre o filme O nome da rosa, baseado na obra de Umberto Eco, clique aqui.



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Literatura para maiores

Depois do estrondoso sucesso do "Cinquenta tons de cinza", da britânica E. L. James, as editoras descobriram um mercado novo. Aproveitando o momento a Harlequin Brasil firmou uma parceria com a Saraiva para o lançamento de uma coleção exclusiva de literatura feminina. “Romances Saraiva” traz para as leitoras cinco séries temáticas, integradas por obras de autoras consagradas em todo o mundo. Os títulos reúnem ingredientes que alimentam o imaginário das mulheres. Além das séries “Paixão”, “Modern”, “Romances Históricos” e “Rainhas do Romance”, sucessos consagrados junto às leitoras, a Harlequin e a Saraiva lançam os livros do selo Sussurro, que publica romances para adultos.

FONTE: Jornal do Brasil

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Há 121 anos nascia J.R.R. Tolkien

Há 121 anos nascia J.R.R. Tolkien.

Em uma famosa palestra proferida por J. R. R. Tolkien na Academia Britânica, como parte de seu trabalho como titular de linguagem anglo-saxã e literatura na Universidade de Oxford, ele fez uma analogia: um fazendeiro inglês descobre uma antiga ruína em sua propriedade e usa as pedras para construir uma torre. Embora os filhos fiquem zangados com ele por ter destruído a ruína, Tolkien diz que, se tivessem subido ao alto da torre, teriam percebido que, daquela nova perspectiva, o fazendeiro agora era capaz de enxergar o mar. Tolkien usa essa imagem para falar sobre as camadas de cristianismo e paganismo no antigo poema inglês Beowulf (cerca de 700-1000). Mas a analogia também funciona para caracterizar o emprego, pelo próprio Tolkien, de uma mitologia já existente na criação de uma adorada série de romances, O Hobbit (romance publicado em 1937) e sua sequência, a trilogia O Senhor dos Anéis (dividido em A Sociedade do Anel, publicado em 1954, As Duas Torres, publicado também em 1954, e O Retorno do Rei, publicado em 1955). 

Como muitos estudantes que debruçaram-se sobre a mais antiga obra de literatura britânica, Tolkien também lamentava a sobrevivência de apenas alguns vestígios das primeiras tradições anglo-saxãs e célticas, após séculos de conquista e da chegada do catolicismo romano. Em vez de se contentar com as ruínas, ele partiu para construir sua própria torre. O mundo dos romances de Tolkien começa pequeno e seus hobbits são uma suave sátira da vida tranquila e sem graça das cidadezinhas inglesas. Entretanto, não se passa muito tempo em suas aventuras para que uma forma épica, mais ampla, entre a cena, e logo os leitores começaram a acompanhar atentamente os detalhados mapas que aparecem no início de cada volume. Os romances estão impregnados de nostalgia no passado, porém possuem uma tristeza madura que falta às hordas de imitadores que praticamente constituíram um gênero à parte. Tolkien pode ter erguido uma torre, todavia, não esqueceu-se das perdas que permitiram sua construção.

FONTE: 501 grandes escritores, Editora Sextante.

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Inauguração do quadro ‘Cafofo da leitura’ conta com dica de Zezé Polessa



Você sabia que a média de leitura dos brasileiros é de apenas um livro por ano? Pensando nisso e nas férias que estão aí, Ana Maria Braga inaugurou um novo quadro no Mais Você, o Cafofo da leitura, onde ela vai apresentar ao público suas obras prediletas. “Eu nunca viajo sem ter um livro na mala e outro na mão, e sempre termino de ler o livro que comecei a ler”, revelou ela.

Como toda novidade, este quadro contou com uma indicação ilustre: Zezé Polessa recomendou as obras do autor curitibano Dalton Trevisan. “É muito delicioso, são pequenas histórias de coisas que dão errado, chama-se Desgracida. As histórias são muito engraçadas, é maravilhoso”, destacou a atriz.

No rol de grandes autores brasileiros, Ana Maria também citou Paulo Coelho, que tem uma obra ampla e é o brasileiro que mais vende no mundo, e o eterno Nelson Rodrigues, com seu humor sarcástico e intelectual.



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Mulheres vencem em todas as categorias do Costa Book Awards


Pela primeira vez na história do prêmio literário britânico Costa Book Awards, mulheres venceram em todas as categorias.

Cada vencedor por categoria recebe 5 mil euros (o equivalente a R$ 16,6 mil).

A romancista Hilary Mantel recebeu o prêmio de melhor romance com "Bring up the Bodies", que já lhe tinha dado o prêmio Man Booker e o National Book Award na categoria de Autor do Ano.

O romance ainda segue inédito no Brasil. No Brasil, Mantel teve lançados os livros "Wolf Hall", "A Sombra da Guilhotina" e "Além da Escuridão".

A escritora Mary Talbot e o seu marido Bryan Talbot -veterano dos quadrinhos- receberam o prêmio de melhor biografia com o romance gráfico "Dotter of her Father's Eyes", a biografia da filha de James Joyce, Lucia, que se entrelaça com as memórias da relação perturbada da autora com o seu pai, o acadêmico especialista em Joyce, James S. Atherton.

A jornalista e escritora Francesca Segal recebeu o prêmio de melhor primeira obra com "The Innocents", que se passa numa comunidade judia em Londres.

A poeta escocesa Kathleen Jamie recebeu o prêmio de poesia pela sua antologia "The Overhaul" e o prêmio da literatura infantil foi para a escritora e ilustradora Sally Gardner por "Maggot Moon".

No próximo dia 29, em uma cerimônia em Londres, será anunciado o livro do ano e os vencedores de cada categoria concorrem.

FONTE: FolhaPress


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Bons livros sobre futebol invadem as prateleiras brasileiras


São Paulo - Nem no Brasil nem no exterior o futebol costuma ser bem tratado pela literatura. Não que não haja livros sobre futebol. Há, e muitos. O raro é que sejam bons. E mais raro ainda que dois ótimos exemplares sejam publicados quase ao mesmo tempo como Páginas Sem Glória, de Sérgio Sant'Anna, e O Barça - Todos os Segredos do Melhor Time do Mundo, de Sandro Modeo. À parte a boa qualidade e terem o futebol como foco, são em tudo diferentes.

Sant'Anna é um dos nossos melhores ficcionistas. Modeo, um jornalista italiano que costuma escrever sobre futebol, mas de maneira toda particular, evitando os clichês dos seus colegas de ofício. Páginas Sem Glória (Companhia das Letras, 184 págs., R$ 29,50), na verdade, é um livro que inclui três relatos, entre eles o mais extenso - e o que nos interessa - e dá título ao volume.

É tão superior aos outro dois, os contos Entre as Linhas e O Milagre de Jesus, que mereceria um volume autônomo. Pequeno, também, pois tem apenas 107 páginas. Mas elas estão entre o que de melhor já se produziu neste país tendo o futebol como tema. São, na verdade, páginas gloriosas.

Para traçar o perfil do seu personagem - o jogador José Augusto Fonseca, o Conde -, Sant'Anna se vale de memórias de infância e juventude e de toda a sua experiência como frequentador do assunto. A história - real - do futebol brasileiro é composta de personagens magníficos, desde os ídolos que deram certo, no campo e na vida, como Pelé e Zico, até os trágicos, como Garrincha e Heleno de Freitas. Na figura ficcional de Zé Augusto, vemos um pouco de cada um deles, e de nenhum.

Bem diferente é a narrativa futebolística de Sandro Modeo em O Barça - Todos os Segredos do Melhor Time do Mundo (Qualitymark, 208 págs., R$ 24,90), que escreve para o Corriere della Serra e outros veículos. A bola da vez, digamos assim, é o Barcelona, atual fenômeno mundial do futebol.

Na opinião quase unânime, o Barça é o melhor time da atualidade. Mas dizer isso seria pouco. Como chegou a essa "forma perfeita"? Modeo ensaia vários ângulos de abordagem. Desde o histórico, associando-o a determinadas características especiais da Catalunha, até a explicação quântica, que esclareceria como o Barça mostra o suprassumo do "futebol total", expressão associada à famosa seleção holandesa dos anos 70.

Todos atacam, todos defendem, todos atuam de forma integrada. O livro de Modeo é esclarecedor, embora não evite o tom superlativo que acompanha em regra os textos sobre o Barcelona. Admiração é uma coisa; deslumbramento, é outra. Mas os méritos são muitos e a ótica interdisciplinar da abordagem enriquece a leitura do futebol.

FONTE: Agência Estado

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